A busca por viver mais deixou de ser o principal objetivo de quem investe em saúde preventiva. Para especialistas em longevidade, o desafio agora é chegar à velhice com autonomia, disposição e qualidade de vida. Nesse cenário, hábitos cotidianos, alimentação, sono, atividade física e relações sociais passaram a ter um peso maior do que a própria genética. Mas, segundo o consultor de estilo de vida Willie Carballo, existe um alerta: transformar o bem-estar em obsessão pode produzir o efeito contrário.
Representante da Clinique La Prairie na América Latina desde 1979 e referência internacional em turismo de bem-estar, Carballo afirma que envelhecer bem depende muito mais do equilíbrio do que de fórmulas milagrosas. Em entrevista, ele fala sobre o avanço da medicina preventiva, explica a importância da epigenética e dá conselhos para quem deseja viver mais — e, principalmente, viver melhor.

Trajetória na Clinique La Prairie
Como começou sua relação com a Clinique La Prairie, quando ainda se falava pouco sobre bem-estar?
Em 1969, tive uma ideia “maluca”: organizar viagens de estudo para jovens argentinos à Inglaterra e à Suíça. Cheguei a representar 35 escolas suíças. O diretor de uma delas comentou que um amigo seu dirigia uma clínica e queria me conhecer. Fomos almoçar e era o diretor da Clinique La Prairie, que esperava que eu pudesse ajudá-los a desenvolver o mercado latino-americano. Na época, eu não fazia a menor ideia do que era a La Prairie. Alguns dias depois, fui visitar meu irmão mais velho, em Paris. Ele era casado com uma francesa cujo pai era amigo íntimo do pai de Philippe Junot (primeiro marido de Carolina de Mônaco). Durante um almoço em família, meu irmão contou sobre a proposta e brincou com o fato de eu ainda não estar convencido a aceitá-la. Então, o senhor Junot disse:
“Willie, acho que essa é uma decisão sobre a qual vale a pena refletir.”
Foi nesse momento que você decidiu aceitar o desafio?
“Exatamente. Foi assim que começou minha história com a La Prairie. Na Europa, todos já a conheciam. Ela era chamada de ‘a fonte da juventude’. Tinha enorme prestígio e era frequentada por personalidades como o papa Pio XII — cuja vida, segundo se dizia, foi salva pela terapia celular —, Winston Churchill, Charles de Gaulle e estrelas de Hollywood como Marilyn Monroe, Marlene Dietrich, Greta Garbo e Catherine Deneuve.”
O novo conceito de longevidade
Como o conceito de longevidade evoluiu desde o início da sua carreira?
“Tenho algumas ressalvas em relação à palavra ‘longevidade’. Porque, na verdade, a pergunta que deveríamos fazer é: queremos viver mais ou melhor? Também vale perguntar: ‘Para que viemos ao mundo?’ Na minha visão, viemos para sermos felizes. Então, viver mais tempo com menos qualidade de vida e sem felicidade não faz sentido. É por isso que hoje se fala tanto em epigenética e estilo de vida.”
Quanto a epigenética influencia a longevidade?
“Os cientistas afirmam que a genética responde, em geral, por apenas 25% a 30% da nossa longevidade. Todo o restante é epigenética, ou seja, a forma como os hábitos e o ambiente influenciam o funcionamento dos nossos genes. Pense em dois irmãos gêmeos, com exatamente a mesma genética. Um tem boa alimentação, pratica atividade física, cultiva bons relacionamentos, dorme bem. O outro bebe em excesso, fuma, se alimenta mal, é sedentário e não descansa. Aos 50 anos, quem você acha que estará melhor? O estilo de vida é o que realmente faz diferença ao longo do tempo.”
Hábitos que favorecem um envelhecimento saudável
Quais hábitos fazem mais diferença?
“Acho que, quando tudo é feito com equilíbrio, praticamente tudo é válido. O problema são os excessos. Comer demais faz mal, exagerar nos exercícios também, e até o excesso de preocupação com a própria saúde pode ser prejudicial. Há pessoas que vivem obcecadas, monitorando tudo o tempo inteiro. Se você fica mais estressado tentando seguir à risca todas as regras do bem-estar, o resultado acaba sendo negativo. O fanatismo não ajuda na longevidade, nem naquilo que eu considero verdadeira qualidade de vida. A palavra wellness significa justamente isso: bem-estar, estar bem. Para mim, isso é longevidade. Quanto melhor você estiver, maiores serão as chances de viver mais.”
“O mesmo vale para metas. Quando estabelecemos objetivos grandiosos demais, é mais difícil alcançá-los. Já as pequenas metas aumentam muito as chances de sucesso no longo prazo. Os estudos sobre as chamadas ‘zonas azuis’, onde vivem algumas das populações mais longevas do planeta, mostram que essas pessoas não passam horas na academia três vezes por semana. Elas simplesmente mantêm um estilo de vida naturalmente ativo, caminham bastante e vivem em contato com a natureza.”
Medicina preventiva
Qual é o principal tratamento oferecido pela clínica?
“Sem dúvida, o programa Revitalization. Trata-se de um plano de saúde de uma semana que combina medicina avançada, nutrição, terapias de movimento e tratamentos voltados para estimular o sistema imunológico e desacelerar o processo de envelhecimento, reduzindo a inflamação do organismo. É considerado o programa de regeneração celular mais avançado do mundo. Tudo é totalmente personalizado, com exames laboratoriais sofisticados, avaliações detalhadas e um check-up de alto nível.”
Três conselhos para viver mais e melhor
Que conselhos você daria para quem deseja viver mais e melhor sem precisar viajar para a Suíça?
“O primeiro é parar. Sair do piloto automático. Reserve um momento para observar aquilo que você faz sem perceber, no cotidiano. Valorize as pequenas coisas: tomar um café, sentir o sol, prestar atenção na árvore da rua, olhar para o céu, perceber o cheiro da manhã. Se você caminha pensando apenas na reunião das 11 horas, nos problemas financeiros ou nas tarefas do dia, perde a oportunidade de viver o presente. Tudo isso existe e precisa ser resolvido, mas, se você nunca interrompe esse fluxo de pensamentos, acaba perdendo a própria vida. E isso envelhece. O estresse constante desgasta as células. Sair do piloto automático é voltar ao corpo e aos sentidos.”
“O segundo conselho, sem dúvida, é cultivar os vínculos afetivos. Talvez seja o mais importante de todos. Você pode tomar os melhores suplementos suíços, comer alimentos orgânicos e praticar ioga. Mas, se estiver sozinho ou cercado de pessoas com quem não mantém relações verdadeiras, profundas, suas chances de viver bem diminuem. É preciso cuidar da família, dos amigos de verdade, daqueles com quem você ri, conversa sem compromisso e compartilha bons momentos. O isolamento é um dos maiores inimigos da longevidade. Precisamos do abraço, do olhar do outro. Sentir-se amado e amar é um combustível biológico. Não é romantismo; é saúde.”
“O terceiro conselho é ter hobbies, um propósito, algo que desperte entusiasmo e que não esteja relacionado ao trabalho ou ao dinheiro. Tenha um projeto, por menor que seja. No meu caso, é cozinhar. Entro na cozinha, coloco uma música, começo a preparar um prato e esqueço do resto do mundo. É a minha meditação. Para outra pessoa, pode ser pintar, montar maquetes, cuidar das plantas ou tricotar. A velhice começa quando nada mais surpreende você ou desperta vontade de aprender. Se uma pessoa tem 80 anos e está animada porque vai aprender piano ou cultivar orquídeas, sua mente continua jovem. E o corpo acompanha essa energia.”