BUSCAR
BUSCAR
Ministério Público

MPRN dá 20 dias para a Seap detalhar como gastou o dinheiro do Funpen recebido em 2025

Cobrança chega duas semanas depois de o órgão ir à Justiça pela cadeia do Potengi, de R$ 7,13 milhões.
Agora RN
08/09/2026 | 18:04

A Secretaria de Estado da Administração Penitenciária (Seap) terá 20 dias para explicar ao Ministério Público do Rio Grande do Norte o que fez com o dinheiro que o Fundo Penitenciário Nacional (Funpen) mandou para o Estado ao longo de 2025. A cobrança está numa portaria publicada nesta terça-feira 8 no Diário Oficial Eletrônico do MPRN, que instaura procedimento administrativo para fiscalizar a destinação dessas verbas. O alvo declarado é a aplicação de tudo o que o Funpen transferiu ao Estado no exercício de 2025.

No prazo fixado, a pasta deve apresentar os termos que formalizaram a adesão ao fundo e o plano que descreve como o dinheiro da modalidade fundo a fundo seria aplicado. A portaria pede número por número: quanto entrou no caixa estadual, quanto já saiu e em que ações o recurso foi empregado. A Seap ainda terá de listar os projetos que continuam parados à espera de autorização do Departamento Penitenciário Nacional e mostrar o planejamento para o saldo que porventura não tenha sido gasto. O documento não informa qual foi o montante repassado ao Rio Grande do Norte no ano passado.

Muro do antigo Centro de Detenção Provisória (CDP) do Potengi, terreno cogitado para nova unidade prisional
Terreno do antigo Centro de Detenção Provisória (CDP) do Potengi, cogitado para nova unidade prisional — José Aldenir

Quem assina o procedimento é a 70ª Promotoria de Justiça de Natal, encarregada de acompanhar a execução orçamentária e o emprego dos recursos destinados ao sistema prisional. É essa promotoria que agora coloca sob exame um exercício inteiro de repasses federais.

O pano de fundo: a cadeia do Potengi

A fiscalização nasce no meio de um desacordo aberto entre o Ministério Público e o Governo do Estado sobre a nova unidade prisional prevista para o Potengi, bairro da Zona Norte de Natal, cujo contrato foi homologado em R$ 7,13 milhões.

O procedimento vem menos de duas semanas depois de o MPRN levar o caso à Justiça Federal para tentar preservar a obra. Em 27 de agosto, o órgão protocolou pedido de tutela de urgência para forçar o Estado a manter o contrato de pé. O passo veio na sequência do anúncio da governadora Fátima Bezerra (PT) de que revogaria a licitação e reabriria a discussão sobre onde a cadeia deveria ficar.

Quem homologou a contratação foi a Secretaria de Estado da Infraestrutura; o ato foi publicado em 22 de agosto no Diário Oficial do Estado. Venceu a concorrência a HB Engenharia Ltda., que apresentou proposta de R$ 7,13 milhões. O endereço definido era a Travessa Macaé, nº 2201, no Potengi, e o projeto previa 189 vagas masculinas. A empresa teria 12 meses para concluir a obra, contados da emissão da ordem de serviço, e a Seap trabalhava com a expectativa de ver a unidade funcionando dentro de dois anos.

O risco de devolver dinheiro federal

A maior fatia do financiamento do empreendimento tem origem federal. Para o MPRN, os repasses feitos desde 2016 podem ter de voltar aos cofres federais se a construção não sair dentro dos prazos previstos em lei. Foi justamente esse risco um dos pilares do argumento levado ao Judiciário. Na leitura do Ministério Público, manter o contrato de pé é o que assegura que o dinheiro já carimbado para o projeto seja de fato aplicado, e é também o que evita um rombo criado por devolução de verba que ninguém chegou a usar.

O órgão sustentou ainda que parar a obra empurraria para a frente as metas de ampliação de vagas no sistema penitenciário estadual. Lembrou que a escolha da construtora consumiu quase um ano de trâmite e que a ordem para começar os serviços já estava emitida quando o Governo mudou de rumo, e afirmou que a decisão ia contra compromissos firmados em três anos de negociações judiciais sobre o aumento da capacidade prisional.

Moradores contra, Governo recua

O recuo do Governo veio depois de protestos de quem mora na área e não quer uma unidade prisional de volta ali. O terreno não é estranho ao assunto: nele funcionou o Centro de Detenção Provisória do Potengi, que está desativado há uns oito anos. Quem mora perto relata que, no período em que o antigo CDP esteve aberto, a vizinhança conviveu com fugas, rebeliões, confrontos e tentativas de arremessar objetos para dentro do prédio.

Ao comunicar a revogação, Fátima Bezerra disse que o local seria rediscutido e que os recursos da obra estavam garantidos, além de defender que a população participe da escolha do novo endereço. O Ministério Público respondeu que trocar de terreno sem justificativa técnica pode desarrumar o planejamento do sistema prisional.

Na ação, o MPRN pediu que o contrato fosse mantido e que os gestores responsáveis pagassem multa mensal em caso de descumprimento. A documentação seguiu também para a Procuradoria Regional Eleitoral, que passou a examinar se a gestão estadual agiu dentro do que permite a legislação eleitoral.