A pressão pelo fim da escala de trabalho 6×1 ganhou força no Rio Grande do Norte durante audiência pública realizada na Assembleia Legislativa na segunda-feira 27, reunindo parlamentares, centrais sindicais, trabalhadores, estudantes e representantes do governo. O encontro expôs dados, relatos e posições divergentes sobre a jornada atual e reforçou a mobilização por redução da carga semanal sem corte de salários.
A audiência foi proposta pela deputada estadual Divaneide Basílio (PT), em conjunto com o deputado federal Fernando Mineiro (PT) e entidades como a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e o Sindicato dos Trabalhadores em Educação. Logo na abertura, a deputada destacou o impacto direto da jornada. “A vida não cabe em um só dia”, afirmou.

Dados apresentados pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) apontam a dimensão do problema no Estado. Dos 513.908 trabalhadores formais no RN, 83,2% cumprem jornadas acima de 40 horas semanais. Entre os homens, o percentual chega a 87%, enquanto entre as mulheres é de 77%. O salário médio desse grupo gira em torno de R$ 1.580. Segundo o levantamento, 40% dos trabalhadores pedem demissão por não suportarem a carga de trabalho.
O técnico do Dieese, Ediran Teixeira, destacou que a reivindicação não é recente. “Essa demanda já vem de séculos”, disse, ao lembrar que a jornada de 44 horas foi estabelecida na Constituição de 1988 após décadas de mobilização. Ele também apresentou dados sobre desigualdade, apontando que 10% mais ricos concentram 56,8% da renda no país.
Fernando Mineiro contextualizou o debate no cenário nacional e informou que cerca de 14 milhões de trabalhadores, o equivalente a 33% da força de trabalho formal, ainda estão submetidos ao regime 6×1. Ele destacou o envio de proposta pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em regime de urgência. “Não tem nada precipitado. A PEC está desde 2019”, afirmou.
A discussão revelou divergências. Representantes do setor empresarial alertaram para impactos econômicos. Já o presidente estadual da CUT, Irailson Nunes, rejeitou a crítica. “Não é pauta eleitoreira. Vá no supermercado e pergunte ao trabalhador”, disse.
O procurador do Ministério Público do Trabalho, Gleitson Gadelha, afirmou que a jornada afeta mais os segmentos vulneráveis. “São pessoas mais desprotegidas, com menor renda e escolaridade”, disse. Ele destacou que o modelo atual é insustentável diante das mudanças no mundo do trabalho.
O superintendente regional do Trabalho, Cláudio Gabriel, defendeu a proposta como forma de redistribuição de renda. “Reduz a jornada de 44 para 40 horas e amplia o descanso sem redução salarial”, afirmou. Ele citou experiências internacionais, como França com 35 horas e Chile com 40.
Relatos de trabalhadores marcaram a audiência. Alessandra, do Sindisuper, afirmou que o sindicato recebe pedidos de demissão semanalmente. “As pessoas não aguentam mais. Estão doentes”, disse. Josivan, trabalhador do setor de serviços, relatou condições no ambiente de trabalho. “É uma escravidão para não sair do caixa”, afirmou.
A juventude também destacou os efeitos da jornada. Luana Bezerra, da União Estadual dos Estudantes, afirmou que muitos jovens precisam escolher entre estudar e trabalhar. “Eles não conseguem fazer os dois”, disse. Segundo ela, mais de 60% dos universitários trabalham.
Representantes do movimento Vida Além do Trabalho defenderam redução ainda maior da jornada, para 36 horas semanais no modelo 4×3. O movimento afirma ter quase 3 milhões de assinaturas em petição nacional.
A audiência também abordou impactos de gênero. A advogada Elisa Maria destacou que a jornada afeta especialmente mulheres, que acumulam trabalho doméstico. “Esse modelo rouba tempo, adoece corpos e aprofunda desigualdades”, afirmou.
Encaminhamentos foram aprovados ao final. Entre eles, a produção de conteúdo informativo pela ALRN sobre a escala 6×1 e o envio de carta pública para deputados estaduais declararem posição sobre o tema.
A mobilização segue nas ruas e deve ganhar força no 1º de Maio. “Nada foi dado. Tudo foi conquistado com luta”, resumiu o dirigente sindical Irailson Nunes.