Um dos fundadores do Partido Ecológico Nacional (PEN) no Rio Grande do Norte, o advogado Luiz Gomes foi destituído da presidência estadual da legenda na semana passada – segundo ele, de maneira “autoritária”. A sigla, que ingressou com pedido na Justiça Eleitoral para se tornar “Patriota” – uma das exigências apresentadas pelo presidenciável Jair Bolsonaro para se filiar ao partido –, agora é comandada no Rio Grande do Norte por um grupo de militares da reserva.
Nesta entrevista exclusiva ao Jornal Agora RN, o ex-presidente estadual da legenda comenta sua saída do partido e projeta o cenário político-eleitoral para 2018, do qual ele pretende participar como candidato a deputado estadual – em 2014, ele obteve mais de 17 mil votos. Ele defende renovação nos quadros da política estadual.

Confira a conversa na íntegra:
JORNAL AGORA RN – Como se deu a sua saída da presidência do Partido Ecológico Nacional?
LUIZ GOMES – Na calada da noite, quando fomos olhar no TRE, já havia acontecido uma substituição de toda a diretoria do partido, sem consulta a nenhum dos dirigentes. De maneira intervencionista e autoritária, fomos substituídos. Isso desagradou a mim e a todos os dirigentes do partido. Todo o trabalho paulatino e continuado feito com base em princípios e condutas democráticas foi ignorado pela direção nacional do partido. O que foi construído foi rasgado. Não foi um processo, foi uma intervenção – eu diria uma “intervenção militar”, pois a comissão que compõe a direção é formada por militares da reserva, pessoas que não estão acostumadas com a democracia e com o diálogo.
JARN – Como o senhor analisa o processo de mudança do partido?
LG – Levamos cinco anos para construir o partido. Estamos consolidados hoje em 89 cidades, temos 16 parlamentares, fizemos mais de 60 mil votos em 2016. Isso nos dá segurança de que construímos um projeto político para o Rio Grande do Norte dentro de um partido que se chamava Partido Ecológico Nacional. Não rasgamos as nossas bandeiras, diferente do PEN, que rasgou as suas bandeiras, o estatuto e os princípios. Assumidamente, pelo estatuto, agora é um partido de extrema direita, que é contra os direitos humanos e sociais, que defende a violência no combate à criminalidade, inclusive a intervenção militar, com o que não vamos concordar. É outro partido. O PEN acabou.
JARN – O senhor acredita que o deputado federal Jair Bolsonaro teve participação nessa “intervenção”?
LG – Eu acho que isso é orientação e direção do próprio Jair Bolsonaro, em que pese ele não seja membro do partido.
JARN – O que o senhor diz desse estilo de ação?
LG – Eu acho que isso retrata o pensamento e a postura dele. Retrata o que ele sempre defendeu: a tortura, a ditadura militar, o autoritarismo. Acho isso radical demais. Levamos 30 anos para chegar à democracia e foi contra esse tipo de postura que nós lutamos.
JARN – Qual será o seu destino político?
LG – Muitas legendas têm me procurado e, democraticamente, vou ouvi-las e dialogar. Mas, mais do que isso, nosso projeto é conversar individualmente e depois coletivamente com todos os parlamentares do partido e todos os ex-presidentes e presidentes municipais do PEN para que esse grupo tome um rumo coletivo. Nosso projeto é maior do que apenas ir para um partido. É um projeto de eleições para deputado, senador, governador. Nós queremos unir o grupo nesse propósito.
JARN – Como o senhor avalia a administração do governador Robinson Faria?
LG – Robinson errou desde o começo, quando esqueceu de consultar e levar em consideração os aliados de verdade que o elegeram. Ele abandonou no primeiro dia de governo. Ninguém governa o Rio Grande do Norte se não discutir com as lideranças políticas, com o complexo da sociedade como um todo. Ele esqueceu tudo isso e achou que podia fazer um governo sozinho. Ele está acabando de uma maneira que eu acho difícil ele ir para um processo de reeleição. Lamento.
JARN – O senhor acredita que a senadora Fátima Bezerra conseguirá se desvencilhar do desgaste do PT e viabilizar seu nome para a disputa?
LG – Eu acho que a candidatura dela é competitiva, independentemente do desgaste. Queira ou não queira, o presidente Lula representa uma liderança muito forte. Ele é o presidenciável mais indicado nas pesquisas. Então, tem essa carga positiva. Mas tem a carga negativa, que é o fato de o PT carregar a mácula de ser o patrocinador de um grande bloco de corrupção no Brasil. Ela vai pagar esse preço também.
JARN – Uma eventual prisão do ex-presidente Lula mina as chances dela?
LG – Sim. Se Lula for preso, a candidatura dela não tem perspectiva.
JARN – Outras prisões de petistas, como as de ex-ministros e ex-tesoureiros, não abalam a candidatura?
LG – Eu diria que desajuda, mas o grande ícone do PT não são essas pessoas, é o presidente Lula. Se ele ficar em pé, muita coisa fica em pé.
JARN – E o prefeito de Natal, Carlos Eduardo Alves? Quais são as chances dele?
LG – Eu acredito que ele deverá ser candidato, pois ele reúne experiência administrativa capaz de ter uma candidatura viável e possível. O Rio Grande do Norte precisa de nomes, e Carlos Eduardo está aí. Eu vejo dificuldade para ele no mesmo aspecto que vejo para a Fátima. Ele vem com um palanque muito pesado, que tem um carimbo chamado Lava Jato.
JARN – A prisão de seu primo, Henrique Alves, e a citação a familiares, além da operação Cidade Luz, não podem pesar contra ele?
LG – Tudo isso vai pesar contra ele, sobretudo se nas delações o nome dele for apontado como integrante do campo da corrupção ativa e passiva. Até agora, ainda não surgiu, mas creio que, se surgir, a candidatura dele se compromete absolutamente.
JARN – Muito se fala no possível surgimento de um nome oriundo do setor empresarial, um outsider. O senhor acredita que há espaço?
LG – Eu acho que é uma oportunidade muito grande de surgir este nome. Primeiro, pela condição política do RN, não só por conta das investigações criminais, mas do ponto de vista administrativo. Precisamos de um homem gestor, capaz e com experiência administrativa. Um homem capaz de administrar grandes crises. Faltou nessa gestão.
JARN – Qual será o seu projeto para 2018?
LG – Nosso projeto é construir um plano de recuperação do Rio Grande do Norte em que a gente consiga virar uma página da história e fazer uma mínima faxina nessa política do estado. Nós não aguentamos mais ficar remoendo coisas antigas. É hora de renovar, eu acredito nisso. E, se for para ir para este caminho, o meu nome estará à disposição para ser candidato a deputado estadual. Nossa ideia é que a Assembleia possa ter uma voz ativa e firme.