O senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, declarou nesta terça-feira 13 que votará a favor da proposta de emenda à Constituição (PEC) que reduz a jornada de trabalho e acaba com a escala 6×1. A votação no Senado está prevista para começar nesta quarta-feira 14, conforme pauta definida pelo presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).
A manifestação ocorreu durante a campanha do segundo turno, a 12 dias da eleição, e representa uma mudança em relação ao discurso adotado por Flávio. No dia 6, quando a proposta começou a ser discutida no Senado, ele disse que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) agia de forma “oportunista” ao levar o tema ao debate eleitoral. Até então, o senador evitava dizer como votaria, enquanto o PL tentava adiar a análise para depois da eleição.

Flávio declarou sua posição à imprensa logo após visitar o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que cumpre prisão domiciliar após condenação por tentativa de golpe de Estado. “A maioria dos trabalhadores brasileiros quer o fim da 6×1, então vou votar a favor”, afirmou.
O fim da escala 6×1 é uma das principais apostas de Lula para tentar reverter a vantagem de Flávio nas pesquisas. O presidente atribuiu a mudança do adversário à pressão popular. “Me parece que, depois da pressão da sociedade, depois de todas as manifestações de rua desse Brasil, o PL resolveu votar o fim da escala 6×1”, declarou. Em seguida, ironizou: “Se todo mal que eu causar a esse país for fazer a direita avançar e atender aos interesses do povo brasileiro, eu vou continuar fazendo isso”.
A PEC reduz de 44 para 40 horas a jornada semanal, prevê duas folgas por semana, uma delas preferencialmente aos domingos, e proíbe redução salarial. A transição seria feita em duas etapas: 60 dias após a promulgação, a carga cairia para 42 horas semanais; 12 meses depois, passaria a 40 horas. O texto foi aprovado pela Câmara em maio e pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado em setembro.
Apesar de anunciar voto favorável, Flávio voltou a questionar os efeitos da proposta para as empresas. Segundo ele, a redução da jornada exigiria a contratação de mais trabalhadores e poderia ampliar a informalidade. “Os empresários estão sufocados, estão quebrados. Então o governo vai ter que bancar essa compensação”, afirmou. O senador disse que considera esses fatores, mas que votará “conforme a vontade da maioria do povo trabalhador brasileiro”.
Flávio também defendeu a proposta alternativa apresentada pelo PL, que prevê maior flexibilidade na jornada e remuneração proporcional às horas trabalhadas, com negociação entre patrões e empregados. Na prática, a redução do tempo de trabalho poderia resultar em diminuição salarial. O candidato afirmou que gostaria que os trabalhadores tivessem liberdade para organizar seus horários e citou o caso de uma mãe que só pudesse trabalhar quatro horas por dia por não ter com quem deixar o filho. “Mas eu acho que é um processo de evolução”, disse.
A votação no Senado poderá ocorrer de forma presencial e remota. Flávio tem compromissos de campanha em Porto Alegre (RS) nesta quarta-feira, mas poderá registrar o voto pelo celular. A base governista começou a recolher assinaturas para que os dois turnos da PEC sejam votados no mesmo dia. Para isso, é necessário o apoio de 54 senadores ou de líderes que representem esse número de parlamentares.
No domingo 11, Lula afirmou que havia combinado com Alcolumbre a votação da PEC antes do segundo turno. “A única coisa que a oposição pode fazer é demonstrar se vai ter coragem de votar contra ou a favor”, disse.
Revisão da PEC
Apesar de declarar voto favorável à proposta em tramitação, Flávio teria informado a aliados que, se eleito, defenderá a revisão de pontos da PEC. Segundo empresários e pessoas próximas ao senador ouvidos pelo jornal Folha de S.Paulo, a intenção seria abrir no Congresso uma discussão sobre mudanças no texto alternativo apresentado pelo senador Rogério Marinho (PL-RN).
A proposta da oposição prevê flexibilidade de jornada e pagamento de acordo com as horas trabalhadas, com negociação entre patrões e empregados. Governistas criticam o modelo por permitir redução salarial quando houver diminuição da carga horária.
A campanha de Lula vinha cobrando nas redes sociais que Flávio se posicionasse sobre o fim da escala 6×1. Depois de declarar voto favorável, o candidato teria dito nos bastidores a empresários, que pressionavam os senadores a rejeitar o texto, que pretende rever alguns pontos caso vença a eleição. A ideia, segundo os relatos, não seria derrubar a PEC, mas incluir regras que ampliem a possibilidade de negociação entre empresas e trabalhadores.
Leia mais
Lula e Flávio participam de missas de Nossa Senhora Aparecida
Flávio Bolsonaro diz ter sido injustiçado em caso de patrocínio a filme
Rogério Marinho explica decisão do PL no segundo turno no RN
A posição individual do candidato foi anunciada após o líder do bloco de oposição no Senado, Wellington Fagundes (PL-MT), informar na segunda-feira 12 que o PL deveria liberar seus integrantes para votar a proposta. A medida permitiria que cada senador da legenda definisse seu voto.
A senadora Tereza Cristina (PP-MS) também afirmou que partidos de oposição deverão liberar suas bancadas. Ela foi escolhida para mediar as conversas entre as legendas e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), sobre a tramitação da PEC.
O governo busca concluir os dois turnos de votação antes do segundo turno das eleições. Para acelerar o calendário, a líder do governo no Senado, Teresa Leitão (PT-PE), deverá apresentar até quarta-feira um requerimento para reduzir os intervalos regimentais.
O rito prevê cinco sessões de discussão antes da primeira votação. Três foram realizadas na semana passada. Depois da aprovação em primeiro turno, são previstos um intervalo de cinco dias úteis e mais três sessões de discussão antes da segunda votação.
Um calendário especial pode permitir a antecipação da segunda votação. Para aprovar a PEC, são necessários pelo menos 49 votos favoráveis entre os 81 senadores em cada um dos dois turnos.
Atualizado com conteúdo da edição impressa de 14/10/2026.