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Mundo

Irã completa 83 dias de apagão digital e amplia isolamento da população

País completa 83 dias de apagão da internet global, restringe acesso a plataformas estrangeiras e amplia controle sobre comunicação e oposição interna
Por O Correio de Hoje
22/05/2026 | 14:41

O governo do Irã completou 83 dias consecutivos de bloqueio quase total da internet internacional, no mais longo apagão digital já registrado em um país amplamente conectado, segundo a organização NetBlocks. A restrição foi intensificada após os ataques de Israel e dos Estados Unidos ao território iraniano, no fim de fevereiro, e ampliou o isolamento digital da população em meio ao agravamento da repressão política no país.

O bloqueio supera inclusive o período de interrupção da internet em Mianmar durante o golpe militar de 2021, que durou 72 dias. Segundo autoridades iranianas e pessoas próximas ao governo, a censura digital seria necessária por razões de segurança nacional. A justificativa oficial sustenta que forças estrangeiras teriam utilizado rastreamento de celulares e redes sociais para localizar líderes militares iranianos e estimular tentativas de desestabilização interna.

Pessoas no Irã Copia
Iranianos passando por cartaz gigante, no centro de Teerã, que enaltece a soberania sobre o Estreito de Ormuz - Foto: Reprodução / internet

Antes mesmo da guerra, plataformas como Instagram e WhatsApp já estavam parcialmente bloqueadas no país. A população recorria ao uso de VPNs para acessar conteúdos externos. Desde o endurecimento das restrições, porém, o custo desses serviços disparou.

Hoje, iranianos precisam desembolsar entre US$ 5 e US$ 10 mensais para utilizar VPNs consideradas confiáveis, valor elevado em um país cujo salário mínimo gira em torno de US$ 70 mensais. No ano passado, o equivalente a US$ 0,20 era suficiente para acessar redes privadas ou obter configurações gratuitas compartilhadas em grupos do Telegram.

Sem acesso a VPNs, os usuários ficam limitados à chamada “internet nacional”, uma rede separada da internet global e composta apenas por plataformas autorizadas pelo governo iraniano. O único serviço estrangeiro parcialmente acessível é o buscador da Google, embora os links internacionais exibidos nos resultados permaneçam bloqueados, incluindo páginas da Wikipedia.

Os principais impactos recaem sobre pequenos empresários, profissionais autônomos e comerciantes que dependiam das redes sociais para geração de renda. Uma professora de inglês relatou ter perdido metade dos alunos após a interrupção das aulas online para estudantes estrangeiros. Já a artesã Zeynab Dezfouly, que realizava 70% das vendas de bolsas e chapéus de crochê pelo Instagram, afirmou acumular queda de 50% no faturamento desde o fechamento da internet internacional.

Em resposta às críticas, o governo criou recentemente um programa chamado “Internet Pro”, voltado a empresários previamente aprovados pelas autoridades. O serviço oferece acesso diferenciado à internet internacional mediante triagem estatal e custos elevados, o que levou opositores a apelidarem o modelo de “internet por classes”. Paralelamente, surgiu um mercado clandestino de revenda desse acesso privilegiado.

Alguns setores ligados ao governo, diplomatas e determinados veículos de imprensa também possuem acesso irrestrito por meio dos chamados “SIM cards brancos”. Desde janeiro, entretanto, o governo passou a prever prisão e confisco de equipamentos para usuários de conexões não autorizadas da Starlink, empresa de internet via satélite de Elon Musk.

O modelo iraniano passou a ser comparado internamente ao sistema de controle digital da China, baseado em plataformas nacionais sujeitas à vigilância e censura estatal. Jovens iranianos aparecem entre os grupos mais afetados pela política de isolamento digital.

“Tiraram a nossa felicidade”, afirmou Paniz, estudante de 19 anos e usuária frequente de TikTok e Instagram antes das restrições. O endurecimento do controle sobre a internet ocorre paralelamente ao aumento da repressão política. Segundo o alto comissário da ONU para Direitos Humanos, Volker Türk, ao menos 21 pessoas foram executadas e mais de 4 mil presas desde o fim de fevereiro sob acusações ligadas à segurança nacional, espionagem ou participação em protestos contra o governo iraniano.

O governo iraniano também ampliou operações contra jornalistas e opositores. Entre os detidos está o jornalista japonês Shinnosuke Kawashima, chefe da sucursal da emissora NHK em Teerã, preso após cobrir manifestações antigoverno. Ele permanece em prisão domiciliar aguardando julgamento.