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Críticas
Ex-secretário de Cultura critica fechamento do teatro Sandoval Wanderley
Rodrigo Bico, ator e ex-secretário estadual de Cultura, se mostra receoso sobre planos para retirada do teatro Sandoval do Alecrim para dar lugar à construção de shopping
Boni Neto
09/05/2017 | 06:30

A saída do Teatro Sandoval Wanderley do Alecrim está preocupando a classe artística de Natal. Rodrigo Bico, ator e ex-secretário estadual de Cultura, está ciente da possibilidade do prédio ser realocado para o bairro da Ribeira para dar lugar à construção do Outlet 25, shopping center planejado pelo Grupo 25. De acordo com Bico, o processo de mudança chega após uma tentativa fracassada da senadora Fátima Bezerra (PT) de tentar arrecadar fundos para salvar o teatro, interditado há oito anos. Para ele, há um grande risco de que o prometido de se construir um novo Sandoval Wanderley na Ribeira não seja cumprido, o que seria uma grande perda para a classe artística e para a população natalense.

“Enquanto ator e militante da cultura, acompanho esse processo desde o fechamento. Na época, a, então, deputada Fátima Bezerra esteve atrás de uma emenda parlamentar para ajudar o teatro, mas a emenda voltou por ausência de projetos e por outros motivos que acabaram não sendo superados. Era uma verba de R$ 800 mil que resolveria tranquilamente os problemas do Sandoval. Logo mais, passou-se a gestão de Micarla e ainda no início da gestão de Carlos Eduardo, Fátima conseguiu manter a emenda, mas a gestão do prefeito não conseguiu levar adiante. Tem pessoas que dizem que a mudança pode ser boa: se estamos com o teatro fechado, abrir outro seria ótimo, mas não estou certo de que isso será cumprido”, opinou Bico, que externou suas preocupações. “Faço uma defesa: uma vez decidida a demolição do Sandoval, só o derrubem com a entrega do novo teatro pronto. Eu tenho muito receio se demolirem e não fizerem o novo teatro logo. Não tenho confiança nem na gestão do prefeito e nem no empresário responsável pelo shopping. Fazer isso é muita loucura. Quem perde é a cidade com o Sandoval fechado e também com o Alberto Maranhão, não temos como escoar a produção artística da cidade e até de quem vem de fora”, completou.

Com a futura chegada do Outlet 25 no Alecrim, o atual Teatro Sandoval Wanderley passará por mudanças. Além de não mais existir o prédio naquele local, que faz parte do terreno (cerca de 10%) adquirido pelo Grupo 25 para a construção do novo shopping, o teatro deve ser completamente renovado em sua infraestrutura assim que for decidido seu próximo berço. O Sandoval Wanderley será provavelmente realocado para – de acordo com a secretária de Cultura de Natal (Secult) – um prédio federal localizado na Ribeira, bairro onde já se encontra o Teatro Alberto Maranhão, interditado pela Justiça do Rio Grande do Norte em julho de 2015, pelos mesmos motivos que levaram ao fechamento do Sandoval, em 2009: infraestrutura comprometida, o que poderia colocar a segurança do público em risco.

As obras do Outlet 25 têm previsão para serem iniciadas no segundo semestre deste ano com conclusão pensada para o final de 2018. A expectativa é de que 280 lojas surjam dentro do shopping, possibilitando a geração de 2000 novos empregos no bairro mais comercial de Natal, e garantindo um maior fluxo no local. Entre as lojas que farão parte deste novo empreendimento, algumas já estão confirmadas, como a Hering, Taco, Sacolão, Ótica Diniz e a loja de departamentos Rio Center. A quantidade de vagas no estacionamento será de 800 a 1000.

“Prefeito e Dácio não conseguem ser transparentes com categoria teatral”

Uma das principais queixas da classe, segundo Rodrigo Bico, é a falta de transparência do prefeito Carlos Eduardo e do atual secretário municipal de Cultura, Dácio Galvão. Para o ator, o prefeito só tem priorizado o aspecto cultural de Natal quando quer, a exemplo da realização do Carnaval neste ano, e tem colocado os artistas natalenses de lado.

“Eu acho que é tudo uma questão de prioridade. Quando o prefeito quer investir, ele coloca milhões de reais em projetos como o Carnaval. Nisso ele se esforça, correndo atrás de patrocinadores, mas acho que ele não teve o mesmo olhar para o Sandoval. Na minha visão, infelizmente o prefeito e o secretário Dácio não conseguem ter um atitude transparente e diálogo com a categoria teatral. Desde agosto de 2016, entregamos um documento para prefeitura. Já sabíamos da proposta do Outlet e externamos nosso medo de que o teatro fosse demolido, o shopping construído e o responsável pelo empreendimento, que quis dar uma contrapartida construindo outro teatro em outro lugar, não o fizesse a contento. O teatro precisa de uma boa localização e que tenha uma qualidade técnica que responda aos anseios dos artistas”, disse.

Para que os conflitos fossem resolvidos, Rodrigo Bico acredita que a prefeitura deveria ter aberto um debate entre as diversas partes envolvidas para planejar mais a fundo o projeto. “Tinha que haver um debate do aspecto histórico. Por mais que o Sandoval não seja tombado, ele tem um aspecto histórico importante para diversos grupos. Além disso, também deveria haver um debate acerca do aspecto técnico e dos impactos gerados com a construção do teatro novo; onde vai ser, qual será a estrutura dele, dentre outras coisas. Sugerimos por carta que a prefeitura fizesse uma audiência pública convocando os diversos setores, incluindo sindicato dos arquitetos, do patrimônio histórico, atores, atrizes, diretores e grupos de artistas para um debate claro e transparente junto ao empresário do shopping e advogados para justificar até que ponto existe uma garantia, e não dizer apenas ‘vamos demolir’ sem dar um documento que garanta a construção do novo Sandoval”.

“Temos que ver até que ponto Ribeira é bom lugar para novo teatro”

Além de se mostrar preocupado com o cumprimento do acordo entre a prefeitura e o grupo responsável pela construção do Outlet 25, Rodrigo Bico também explicou que o público e a classe deveriam ser consultados sobre a localização do novo Sandoval Wanderley. A prioridade é colocá-lo na Ribeira, mas o ator, membro do grupo Facetas, Mutretas e Outras Histórias, não tem certeza se esta seria a melhor ideia.

“É preciso ver com cuidado onde se vai colocar. A Ribeira é um lugar lindo, que tem a história da nossa cidade, tem vários pontos positivos, mas temos que ver até que ponto é um bom lugar; qual o estudo que a prefeitura faz para definir que o bairro é o melhor lugar para a construção de um teatro assim. Eu não vejo essas coisas serem definidas e conversadas com as pessoas. Acaba não tendo um compromisso real e um estudo de impacto que passe a viabilizar o melhor local. Parece que a mentalidade é: se o único lugar é lá, então vamos construir lá”, concluiu.

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