Estamos vendo nas últimas semanas uma série de notícias que parecem chocar pelo seu teor. Quando você vê um vídeo de uma mulher no parto sendo estuprada pelo seu anestesista, que deveria estar lá para auxiliá-la nesse momento em que ela está frágil e vulnerável, queremos chamá-lo de monstro. Dizer que ele deve pagar, alguns falam até em castração química e sofrimento físico. Aqueles que gostam do “olho por olho, dente por dente”, clamam na internet para que ele seja estuprado na prisão. “Feito de mulherzinha”, diriam. Mas esse “monstro” nada mais é do que a versão mais assustadora daquilo que nós mulheres conhecemos muito bem: a cultura do estupro.
Por isso, hoje quero conversar com os homens leitores dessa coluna. Para contar para vocês que no Rio de Janeiro, a cada 14 dias uma mulher é estuprada dentro de um hospital. E no mundo de fora é ainda pior: a cada 10 minutos uma mulher é estuprada no Brasil. E que não são monstros ou psicopatas doentes que nos atacam: se trata em sua maioria de pessoas de conhecimento da vítima. Vizinho, amigo, irmão, pai, padrasto, avô, tio. São pessoas com quem você convive.
Com quem você ri no bar quando ele conta que deu “bebida quente” para a menina ficar “facinha” (transar com mulheres bêbadas que não tem condição de decidir sobre seus corpos chama estupro de vulnerável). Ou mesmo aquele colega de trabalho que sempre faz uma piadinha que passa dos limites com a mulher do departamento (isso chama assédio sexual).

É, meus amigos leitores, o mundo é muito difícil e violento para nós mulheres. E o que a gente precisa não é que vocês queiram se vingar daqueles que nos atacam, mas que vocês nos ajudem a educar antes que a coisa aconteça. Então, essa colunista aqui vai soltar um desafio: que a cada vez que você ouvir algo de um conhecido, amigo ou parente que ataca as mulheres, ou uma história que não deixa claro se aquela mulher queria ou não ter relações com ele, não se cale. Diga que isso não tem graça, que ele não pode importunar uma mulher dessa forma, conte que estupro é crime. Eu sei que muito provavelmente você vai ficar com vergonha, afinal, “é só uma brincadeira”. Mas é assim que começa. Numa brincadeira. Até que se naturaliza. Até que a mulher violentada precisa explicar por que estava naquela rua, com aquela roupa, como se ela tivesse “provocado”.
Nós não estamos mais ficando em silêncio. Agora é a vez de vocês. Vocês topam?