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Saúde
100 anos depois da gripe espanhola, mundo ainda segue vulnerável
Em 1918, um terço da população de Natal sofreu com o vírus que matou 50 milhões no mundo; nova mutação do vírus pode gerar nova pandemia, diz especialista
Redação
28/03/2018 | 15:18

Cem anos depois da gripe espanhola, o mundo continua “vulnerável” às mutações do vírus da gripe. O alerta é do infectologista Kleber Luz, doutor pela Universidade de São Paulo. Ele analisa o impacto da doença que infectou 1/3 dos habitantes de Natal – à época com pouco menos de 30 mil habitantes. É como se a pandemia levasse hoje para a cama 300 mil pessoas na cidade com quase 900 mil habitantes.

Para Kleber Luz, se houver uma nova mutação importante, não há nada que impeça que a história se repita. “Só que, desta vez, as facilidades da vida moderna deixarão tudo muito mais rápido”, diz.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, os países ainda não estão 100% prontos para uma nova pandemia. A entidade vai criar força internacional de médicos e enfermeiras para frear novos surtos de emergência.

Vacinação contra a gripe começa em 16 de abril

Natal inicia a nova campanha de vacinação contra a gripe, o vírus influenza A, a partir do dia 16 de abril, segundo informações da Secretaria Municipal de Saúde (SMS). A vacinação tem como meta imunizar o público formado entre crianças de 6 meses a 5 anos, pessoas com 60 anos ou mais, trabalhadores da área de saúde, indígenas, gestantes, puérperas (mulheres até 45 dias após o parto), presidiários e funcionários do sistema prisional.

Agora RN: Como o senhor interpreta a mutabilidade do vírus?
Kléber Luz: Interpreto a partir da capacidade que esses vírus têm de reunir várias pequenas mutações numa grande mutação. É quando o vírus do porco se reúne com o das aves o da gripe humana, tendo como resultado uma recombinação que dá origem a um vírus extremamente agressivo e de alta letalidade.

Agora RN: E o resultado qual seria?
Kléber Luz: Imagine o seguinte. O aparelho respiratório é dividido em duas partes: superior, onde se origina o espirro, a coriza, o mal estar; e inferior, onde ocorre a pneumonia. Então, quando se dá a mutação, ela afeta a parte inferior do pulmão, produzindo uma doença grave que pode levar à morte rapidamente. É o resultado de dois fatores preponderantes: a transmissibilidade e a agressividade.

Agora RN: Tudo isso por causa de uma gripe?
Klaber Luz: Todos nós gripamos desde sempre, mas quando aparece esse vírus mutante, ele ganha justamente esses dois aspectos aos quais me referi: a transmissibilidade, que é igual à de todos os vírus, mas com uma agressividade muito maior que pode matar, graças a um estado agravado por uma pneumonia bacteriana.

Agora RN: E o que as autoridades podem fazer nesses casos, pedir para a população ficar em casa, por exemplo?
Kléber Luz: Infelizmente, não há muito a se fazer. Fechar escolas, impedir festas, nada disso adianta. Não há barreiras eficazes à evolução da doença.

Agora RN: No caso da gripe espanhola, o senhor encontrou algo interessante que afetou Natal naquela época?
Kléber Luz: No Nordeste, as cidades de Natal e Recife foram fortemente atingidas pelo vírus da gripe espanhola. E tudo que aconteceu em Recife aconteceu em Natal, já que ambas as cidades guardam similaridades epidemiológicas, como densidade habitacional e clima.

Agora RN: Existem diferenças na propagação da doença entre Nordeste e o Sul?
Kléber Luz: Enquanto nos estados do Sul do país, a gripe se desenvolve mais nos meses de inverno (entre junho e julho), aqui para nós isso ocorre durante o clima úmido de calor e chuvas no final do ano. Ou seja, a umidade em todo o Nordeste se encarrega de espalhar o vírus, enquanto no extremo Sul o responsável é o frio que faz como as pessoas se confinarem a ambientes fechados.

Agora RN: Quer dizer que, para nós, a umidade é um grande fator de transmissibilidade?
Kléber Luz: Certamente. Como as cidade de Recife (PE) e Belém (PA), que foram fortemente atingidas pela gripe espanhola, Natal o foi por ser quente e úmida. Naquela época, as pessoas não tinha ar-condicionado e viviam com as janelas e portas abertas. E isso pode fazer com que o vírus se espalhe mais rapidamente, em vez de limitá-lo. Por isto, eu digo toda a vez que surge uma epidemia e as pessoas logo dizem para suspender as aulas e evitar o Carnatal: não adianta.

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