O celular vem substituindo, em um número crescente de estabelecimentos e prestadores de serviços, as tradicionais maquininhas de cartão. A tecnologia conhecida como tap on phone, que transforma smartphones e tablets em terminais para pagamentos por aproximação, movimentou R$ 27,1 bilhões no primeiro trimestre de 2026, crescimento de 114,6% em relação ao mesmo período do ano anterior. O avanço reforça a rápida transformação do mercado brasileiro de meios de pagamento, impulsionada pela digitalização dos negócios e pela popularização das transações por aproximação.
Levantamento da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs) mostra que, em apenas dois anos, o volume financeiro processado pela modalidade cresceu 1.188,8%. Do total registrado entre janeiro e março, R$ 25,4 bilhões foram movimentados em compras no crédito, alta de 115,6%; R$ 1,2 bilhão em operações de débito, crescimento de 105,4%; e R$ 500 milhões em cartões pré-pagos, avanço de 92,6%.

Embora ainda represente uma parcela reduzida de um mercado de cartões estimado em R$ 5 trilhões em 2026, a modalidade mantém ritmo acelerado de expansão. A expectativa da Abecs é que o tap on phone movimente cerca de R$ 100 bilhões até o fim deste ano.
Segundo o vice-presidente da entidade, Ricardo Vieira, o crescimento ainda está longe de atingir um limite. Na avaliação dele, a tecnologia continuará ampliando sua participação nos próximos anos, acompanhando a expansão do próprio mercado de cartões.
O tap on phone começou a ser implementado no Brasil em 2021, quando aparelhos com sistema Android passaram a operar como terminais de pagamento. Em 2023, a Apple também liberou o recurso para dispositivos da marca. Apesar disso, a adoção ganhou velocidade apenas nos últimos dois ou três anos, favorecida pela digitalização acelerada da economia após a pandemia de Covid-19, pela consolidação do Pix e pela disseminação dos pagamentos por aproximação.
O ritmo de crescimento chama atenção quando comparado a outras inovações do setor. Os cartões com tecnologia NFC chegaram ao mercado brasileiro em 2008, mas levaram aproximadamente uma década para alcançar ampla utilização entre consumidores e estabelecimentos.
Ao contrário das expectativas iniciais, a nova tecnologia não reduziu a utilização das maquininhas tradicionais. Em vez disso, ampliou o número de profissionais e pequenos negócios capazes de aceitar pagamentos eletrônicos. Médicos, dentistas, fisioterapeutas, professores particulares, personal trainers, taxistas e feirantes passaram a utilizar o próprio telefone celular para receber pagamentos, eliminando a necessidade de adquirir equipamentos específicos.
Segundo o diretor de aceitação da Visa no Brasil, Marcos Marins, a solução foi criada originalmente para atender pequenos comerciantes com uma alternativa de baixo custo. O executivo afirma que, por utilizar software em vez de hardware, o sistema reduz barreiras de entrada para quem deseja aceitar cartões.
Na prática, porém, o perfil dos usuários brasileiros acabou se diferenciando de outros mercados. Enquanto em diversos países a tecnologia é utilizada principalmente em pequenas compras do varejo, no Brasil ela passou a atender também profissionais liberais que realizam cobranças de maior valor.
Essa característica ajuda a explicar o tíquete médio das operações. De acordo com a Visa, cada transação por tap on phone no Brasil movimenta, em média, US$ 78, valor significativamente superior aos cerca de US$ 28 registrados em mercados como Argentina, Peru e Colômbia. Grande parte dessa diferença decorre do pagamento de consultas médicas, mensalidades e serviços especializados.
A empresa afirma que o Brasil se tornou o principal mercado mundial da modalidade, superando economias como Estados Unidos e Reino Unido. Atualmente, existem cerca de 3,5 milhões de terminais ativos de tap on phone no País.
Para Marins, a velocidade de adoção está ligada ao histórico brasileiro de incorporação de novas tecnologias financeiras. Segundo ele, a expansão dos pagamentos instantâneos e das compras por aproximação criou um ambiente favorável para a disseminação da nova solução.
Os pagamentos por aproximação também seguem ampliando sua participação no mercado. Dados da Abecs indicam que 75% das compras presenciais realizadas com cartões utilizam atualmente a tecnologia NFC. Em 2022, essa participação era de apenas 19%.
O avanço abre espaço para fintechs ampliarem sua atuação no segmento. A RecargaPay, uma das empresas habilitadas para oferecer a solução, registra crescimento mensal entre 25% e 30% nas transações realizadas por meio do tap on phone. Segundo o vice-presidente da companhia, Gilmar Hansen, a tecnologia representa uma nova etapa da transformação digital iniciada com a popularização do Pix.
Hoje, segundo a Visa, 17 empresas estão autorizadas a oferecer a solução de recebimento por celular a comerciantes e prestadores de serviços no Brasil, em um mercado que continua atraindo novos participantes e ampliando a digitalização dos meios de pagamento.