Carolina Dieckmann vive uma fase de reencontro com o cinema. Protagonista de Pequenas Criaturas, longa dirigido por Anne Pinheiro Guimarães e vencedor do Festival do Rio de 2025, a atriz afirma estar satisfeita com a própria imagem e diz que críticas ao corpo já não têm o mesmo impacto.
“É tão fora de moda essa história de julgar o corpo alheio”, afirmou durante entrevista em São Paulo. “Ao mesmo tempo, estou tão feliz com meu corpo que isso não bate em mim, não me atravessa.”
Carolina Dieckmann protagoniza Pequenas Criaturas, filme vencedor do Festival do Rio - Foto: Reprodução
Para interpretar Helena, personagem central do filme, Dieckmann passou por uma transformação física. Ela contou que seguiu um protocolo de jejum intermitente durante 40 dias, fazendo apenas uma refeição por dia, sempre à noite. Nos demais períodos, consumia água com sal para evitar queda de pressão.
Ambientado em 1986, Pequenas Criaturas acompanha uma família recém-chegada a Brasília. Após a mudança motivada pelo trabalho do marido, vivido por Michel Melamed, Helena se vê sozinha quando ele parte em uma viagem sem data para retornar. Enquanto os filhos enfrentam descobertas próprias da juventude e da infância, ela mergulha em um processo de isolamento e insegurança.
Segundo a atriz, a personagem enfrenta um momento de ruptura logo no início da narrativa.
“Logo no começo da história, a Helena toma uma rasteira e engole seco, vai para dentro de si, numa viagem muito particular, muito solitária”, disse. “Eu sempre me dediquei ao drama, meu gênero preferido. Gosto de fazer mulheres com alguma dor. Acho mais interessante.”
Na vida pessoal, Dieckmann faz um contraste entre sua personalidade e a protagonista. Casada desde 2007 com o executivo Tiago Worcman, ela é mãe de Davi Frota, de seu primeiro casamento com Marcos Frota, e de José Worcman.
Ao relembrar sua trajetória, afirma enxergar nos momentos difíceis oportunidades de transformação.
“Olho minha trajetória e vejo que todos os limões que passaram pelas minhas mãos viraram limonadas. O que ficou para mim foi que a gente na vida tem pessoas e não coisas.”
Com quase três décadas de carreira, a atriz revisitou um dos episódios mais marcantes da televisão brasileira: a cena em que raspou a cabeça para interpretar Camila, personagem com leucemia em Laços de Família (2000). Ela contou que a decisão teve consequências profissionais imediatas, incluindo a perda de campanhas publicitárias, mas nunca se arrependeu.
“Quando olho para trás, penso: ‘caramba, que bom que eu fiz o que tinha que ser feito’. Seria uma marca horrorosa na minha vida se não tivesse feito.”
A mudança também alterou sua percepção sobre a própria aparência.
“Foi a primeira vez que eu comecei a me achar bonita. Eu tinha uma visão distorcida da minha imagem. Quando raspei a cabeça, me olhei no espelho e falei: ‘caramba, essa sou eu?’. Foi um rito de passagem.”
Outro episódio que marcou sua vida aconteceu em 2012, quando fotos íntimas foram retiradas de seu computador após um ataque de hackers. Os criminosos tentaram extorqui-la para impedir a divulgação das imagens, mas a atriz recusou pagar. O caso ganhou repercussão nacional e impulsionou mudanças na legislação brasileira sobre crimes cibernéticos, dando origem à chamada Lei Carolina Dieckmann.
Ela lembra que enfrentou forte exposição durante aquele período.
“Não tinha outra coisa a fazer, mas tomei muita porrada. Ninguém está pronto para tomar porrada do jeito que eu tomei.”
Os suspeitos foram investigados por crimes como furto, extorsão, difamação e associação criminosa. A repercussão contribuiu para a aprovação da Lei Federal nº 12.737/2012, que passou a tipificar a invasão de dispositivos eletrônicos.
Dieckmann também comentou sua participação no remake de Vale Tudo, no qual interpretou Leila. Diferentemente da versão original da novela, sua personagem não seria a responsável pela morte de Odete Roitman.
“Qualquer atriz que fosse interpretar a Leila gostaria de fazer essa cena. Seria incrível, mas já entrei sabendo que não seria o caso. Então tirei esse assunto da cabeça.”
Ao voltar a falar sobre aparência física, a atriz disse que a discussão ultrapassa sua experiência pessoal e afeta milhares de mulheres.
“Já ouvi coisas horríveis sobre o meu corpo. Quantas vezes vi Preta ser julgada de forma horrível pelo corpo dela. Essa briga também é minha porque afeta muitas mulheres que não estão com os corpos que gostariam de ter.”
A entrevista terminou com uma lembrança da cantora Preta Gil, morta em julho de 2025, aos 50 anos, enquanto fazia tratamento experimental contra um câncer de intestino nos Estados Unidos. Amigas por 25 anos, Dieckmann disse que ainda vive o processo de luto.
“Não realizei o luto da Preta ainda. Tento entender como vai ser a minha vida sem ela, porque ainda não é. Ela segue presente em muitos momentos.”
Ao definir a amiga, resumiu:
“Ela era extraordinária. Não há ninguém como ela. Sempre a mais corajosa, a mais afetuosa, a amiga mais presente.”
