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Fazenda

Governo articula novo programa para renegociar dívidas

Proposta busca reduzir comprometimento da renda, que atinge 29,3%, e prevê negociações diretas com bancos
Por O Correio de Hoje
31/03/2026 | 13:08

O Ministério da Fazenda iniciou conversas com instituições financeiras para estruturar um novo programa de renegociação de dívidas, com o objetivo de aliviar o orçamento das famílias brasileiras. A iniciativa surge em um cenário de alto comprometimento da renda com empréstimos, atualmente em nível recorde.

Hoje, cerca de 29,3% da renda das famílias está destinada ao pagamento de dívidas, segundo dados do Banco Central — o maior percentual desde o início da série histórica, em 2011. Esse indicador tem sido apontado por integrantes do governo como um dos principais sinais de pressão sobre o consumo e a renda disponível. No Palácio do Planalto, há preocupação com os efeitos desse quadro, inclusive no ambiente político.

Dario Durigan foto Washington Costa MF
Novo ministro da Fazenda, Dario Durigan, se reuniu com representantes de bancos - Foto: Washington Costa / MF

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já sinalizou incômodo com o tema. Em evento realizado na última quinta-feira, ele afirmou ter solicitado ao novo ministro da Fazenda, Dario Durigan, a apresentação de alternativas para enfrentar o endividamento das famílias. Lula ponderou que nem toda dívida é problemática, citando financiamentos para aquisição de bens duráveis, como imóveis, mas criticou o acúmulo de pequenas compras, especialmente pela internet, que acabam comprometendo o orçamento mensal.

“Aí a gente começa a ficar zangado: “Pô, trabalhei o mês inteiro, peguei meu salário e não sobrou nada”. Aí quem que você xinga? O governo. É lógico. Porque o mundo é assim. Sabe, primeiro é Deus, porque tudo que dá errado ou dá certo é culpa de Deus também. E no governo é só o que dá errado. Eu sei que a cabeça das pessoas funciona assim”, afirmou o presidente durante agenda em Anápolis (GO).

Nesta segunda-feira, Durigan se reuniu com representantes de entidades do sistema financeiro, incluindo a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), a Associação Brasileira de Bancos (ABBC), a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs), a Zetta e a Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi).

Segundo relatos de participantes, houve alinhamento inicial entre as propostas da Fazenda e do setor bancário. A ideia em discussão prevê a criação de um novo programa de renegociação, com funcionamento mais simples e rápido que o Desenrola, lançado em 2023. Diferentemente do modelo anterior, que envolveu leilões para definição de descontos e adesão por meio de plataforma digital, a proposta atual considera negociações diretas entre clientes e bancos.

A busca por maior agilidade é um dos principais pontos do novo desenho. O governo também avalia dar outro nome ao programa, evitando a percepção de recorrência de medidas desse tipo, o que poderia estimular inadimplência estratégica por parte dos consumidores.

Assim como ocorreu no Desenrola, há expectativa de que o governo ofereça algum tipo de incentivo para estimular a adesão das instituições financeiras e viabilizar condições mais vantajosas, como juros reduzidos. No programa anterior, parte das operações contou com garantia do Fundo Garantidor de Operações (FGO), especialmente para a população de menor renda.

As entidades financeiras ficaram de analisar a proposta e apresentar contribuições ao Ministério da Fazenda. A sinalização do governo é de que há pressa na implementação de uma solução.

Até o momento, a equipe econômica descarta medidas que envolvam tabelamento de juros. Mais cedo, no entanto, a ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, afirmou que Lula solicitou estudos ao Banco Central e à Fazenda para avaliar alternativas de redução dos juros do crédito rotativo do cartão.

“O presidente pediu para estudar. Ele disse assim: “Olha, como é que pode um juro que é uma Selic por mês em crédito rotativo?” Isso não tem justificativa. Se o juro do cheque especial já está tabelado, por que você não pode ter referência ali (no rotativo). Então o presidente pediu ao Banco Central e ao Ministério da Fazenda para ver que medidas podem ser tomadas”, declarou Gleisi.