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Economia

Diesel caro já afeta colheira e plantio e acende alerta para alta nos alimentos

Restrição na oferta e aumento de até 19,4% no preço do combustível pressionam produção, frete e podem chegar ao consumidor final
Por O Correio de Hoje
24/03/2026 | 17:16

A escalada dos preços internacionais do petróleo, impulsionada pelo conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, já começa a produzir efeitos concretos no Brasil, especialmente no abastecimento de óleo diesel. A restrição na oferta do combustível tem se espalhado por diferentes regiões e acende um alerta tanto para o escoamento da produção agrícola quanto para o funcionamento de máquinas no campo.

Há registros de dificuldades em áreas estratégicas do agronegócio, que vão do Sul ao Centro-Oeste. A preocupação dentro do governo é de que o problema ultrapasse a logística e alcance o consumidor final, com possível impacto nos preços dos alimentos. O milho, base da ração animal, aparece como um dos pontos de atenção, já que qualquer encarecimento pode pressionar também o valor das carnes.

Máquina no campo
Diesel abastece tratores e equipamentos utilizados na produção agrícola - Foto: Licia Rubinstein / Agência IBGE

Neste momento, as ações adotadas ainda se concentram na redução de tributos sobre combustíveis e na intensificação da fiscalização de reajustes. Paralelamente, ganha força a discussão sobre a criação de uma linha emergencial de crédito para mitigar os efeitos da crise.

O diesel tem papel central em toda a cadeia produtiva: abastece tanto os caminhões responsáveis pelo transporte da safra quanto os tratores e equipamentos utilizados no plantio e na colheita. Com a alta recente, o combustível já chega ao consumidor com preço 19,4% superior ao registrado antes do início do conflito, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo.

O aumento tem impacto direto nos custos logísticos. O consultor José Vicente Caixeta, diretor da Caixeta Inteligência Logística, explica que o encarecimento do combustível já pressiona o frete. “O impacto não acontece apenas nos produtos que estão sendo colhidos, mas também naqueles que estão sendo plantados já que as máquinas também usam o diesel”, afirmou, em entrevista ao jornal O Globo.

A instabilidade também altera o comportamento do mercado. De acordo com James Thorp, presidente da Fecombustíveis, a incerteza em relação aos preços e ao abastecimento tem provocado aumento da demanda. “As distribuidoras vêm atendendo os pedidos de acordo com a média do consumo dos postos. Pedidos extras não vêm sendo atendidos”, diz.

No Sul do país, o cenário já afeta serviços públicos. Levantamento da Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul aponta que 165 cidades relataram dificuldades no abastecimento de veículos e máquinas oficiais. A preocupação é ainda maior por coincidir com o período de colheita do arroz, que atinge seu pico em março.

Produtores também sentem os efeitos. Em Viamão, na região metropolitana de Porto Alegre, o agricultor Rafael Goelzer relata aumento expressivo no custo do diesel em plena colheita de azeitonas. “Ainda não tivemos falta de combustível de nossos fornecedores, mas a expectativa é que a crise maior ocorra nas próximas duas semanas”, afirma.

Em outras regiões, o impacto se repete. No interior de São Paulo, há registros de usinas de cana-de-açúcar atrasando ou interrompendo a colheita por dificuldades no abastecimento. “Em Ribeirão Preto, várias usinas de cana já estão parando e atrasando a colheita porque há dificuldade no abastecimento. Isso vai gerar impacto no etanol e no açúcar”, afirma Eduardo Valdivia, presidente do Recap.

No Centro-Oeste, a pressão se concentra no escoamento da soja e no plantio da segunda safra de milho. A reação do setor tem sido antecipar compras e reforçar estoques, numa tentativa de reduzir riscos.

O momento é considerado especialmente delicado para o agronegócio. Além da alta no diesel, produtores enfrentam custos elevados, crédito mais caro e níveis elevados de endividamento. A combinação desses fatores comprime as margens e amplia a vulnerabilidade do setor.

Diante desse cenário, o governo federal acompanha a evolução da crise. Entre as medidas anunciadas estão a desoneração de tributos federais sobre o diesel e a concessão de subsídios a produtores e importadores. Também foi mobilizada a Secretaria Nacional do Consumidor, que vai apoiar órgãos de defesa do consumidor na fiscalização de preços abusivos.

Nos bastidores de Brasília, volta a ser discutida a criação de uma nova etapa do programa Brasil Soberano, voltado ao apoio de empresas afetadas por choques externos. A iniciativa ainda está em análise, mas sinaliza que o governo já considera a possibilidade de um impacto mais prolongado da crise sobre a economia.