Os grandes equipamentos culturais concentram parte importante da programação artística de Natal, mas é nos espaços independentes que uma parcela significativa da produção potiguar encontra palco, público e oportunidade de permanência.
Criados por produtores e artistas, esses ambientes funcionam como locais de apresentações, formação de público e circulação da economia criativa, ao mesmo tempo em que enfrentam dificuldades para manter as atividades diante da instabilidade dos mecanismos de incentivo.

A avaliação é do produtor cultural Geraldo Gondim, fundador do Figa Bar e Cultura e idealizador do Ecopraça, projetos que surgiram em momentos distintos, mas compartilham o objetivo de aproximar a cultura dos moradores e ampliar os espaços para artistas locais.
Em entrevista ao podcast Cultue, ele defendeu que iniciativas independentes têm papel decisivo para fortalecer a cena cultural e ocupar territórios que historicamente receberam pouca atenção das políticas públicas.

O Ecopraça nasceu em 2013, inspirado por movimentos de ocupação de espaços públicos que ganhavam força em diferentes cidades. A ideia surgiu depois que Gondim passou a cultivar uma praça em Candelária e decidiu reunir artistas e moradores para transformar o local em um espaço de convivência.
A primeira edição atraiu público acima da expectativa e deu origem a um projeto que, ao longo de 13 anos, realizou quase 50 encontros em Natal e também no interior do estado.
Segundo ele, além das apresentações artísticas, o projeto passou a estimular feiras de economia criativa, comércio ambulante e a ocupação permanente das praças.
“A gente já conseguiu ir para as quatro regiões administrativas da cidade e também para o interior. O nosso sonho sempre foi ter uma praça viva, com atividades acontecendo o tempo inteiro”, afirmou.
Apesar da trajetória, o Ecopraça está há dois anos sem novas edições. Geraldo Gondim atribui a interrupção às dificuldades de acesso às leis de incentivo, mesmo após conseguir patrocinadores para o projeto.
Segundo ele, a redução da renúncia fiscal municipal e o tempo de tramitação dos projetos têm impedido a realização das atividades. Na avaliação do produtor, a falta de continuidade compromete não apenas os eventos culturais, mas também toda a cadeia econômica envolvida.
Ele estima que uma edição do Ecopraça mobilize cerca de 30 profissionais diretamente, além de trabalhadores terceirizados, feirantes e ambulantes. “A cultura fomenta essa economia de uma forma muito positiva”, disse.
A experiência acumulada com o projeto levou Gondim a abrir, há pouco mais de um ano, o Figa Bar e Cultura, na Vila de Ponta Negra. Mais do que um estabelecimento comercial, o espaço foi pensado como uma sede para atividades culturais e um ponto permanente de encontro entre artistas e moradores.
A escolha da Vila de Ponta Negra não foi casual. Morador da região, Geraldo Gondim afirma que percebeu um esvaziamento das atividades culturais locais após o fechamento da Tapiocaria da Vó, espaço que promovia apresentações artísticas e encontros comunitários.
Ao identificar um imóvel desocupado em uma das ruas da Vila, decidiu transformar o local em um centro cultural sustentável financeiramente por meio da operação do bar.
Segundo ele, o empreendimento também surgiu como resposta ao processo de transformação urbana vivido pela comunidade. “A Vila de Ponta Negra é um território extremamente rico de cultura, mas sofre um processo de gentrificação.
Os moradores locais vão sendo afastados e existe um estigma de violência para quem não conhece o lugar”, afirmou.
A programação do Figa reúne shows, poesia, cinema e outras linguagens artísticas. Para valorizar os músicos, o espaço adotou um modelo em que todo o valor arrecadado na entrada é destinado aos artistas.
A medida, segundo Geraldo Gondim, busca corrigir uma prática comum no setor, em que músicos recebem cachês incompatíveis com o público presente nas apresentações.
“A nossa missão é fazer com que esse dinheiro chegue para o artista”, afirmou. Ele também chama atenção para a defasagem dos cachês pagos à produção cultural local.
“Há vinte anos os ingressos custavam R$ 10 ou R$ 15. Hoje continuam praticamente no mesmo valor. Tudo aumentou de preço, menos isso.”
Na visão do produtor, fortalecer artistas locais passa pela construção de políticas públicas permanentes e pelo reconhecimento da cultura como atividade econômica.
Ele argumenta que investimentos em produções potiguares permanecem circulando na cidade, gerando emprego, melhorando a estrutura dos grupos e criando condições para que mais profissionais consigam viver da própria arte.
Além da dimensão econômica, Geraldo Gondim defende que espaços culturais independentes contribuem para a ocupação dos bairros e para a revitalização de áreas antes pouco frequentadas.
Segundo ele, desde a abertura do Figa, novos empreendimentos passaram a funcionar na mesma região da Vila de Ponta Negra, impulsionados pelo aumento da circulação de pessoas atraídas pela programação cultural.
Para o produtor, iniciativas dessa natureza ajudam a construir pertencimento e preservam a identidade dos territórios. “O maior sonho é ver o potencial que a gente tem na cultura daqui de Natal viver de verdade, que os artistas saiam dessa dificuldade de sobrevivência e que a gente reconheça e valorize quem faz cultura aqui”, concluiu.