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Opinião

Uma geração em sofrimento silencioso

Levantamento do IBGE mostra índices maiores entre meninas e na capital potiguar
Por O Correio de Hoje
26/03/2026 | 15:21

Os dados mais recentes da IBGE, por meio da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, revelam um quadro que exige leitura cuidadosa e abordagem responsável. No Rio Grande do Norte, 15,3% dos estudantes de 13 a 17 anos afirmaram ter sentido, na maior parte do tempo ou sempre, que a vida não vale a pena ser vivida nos 30 dias anteriores à pesquisa. Em Natal, esse percentual chega a 17,5%. Em termos práticos, trata-se de uma parcela significativa dos jovens em idade escolar convivendo com sentimentos persistentes de desânimo extremo.

O levantamento mostra ainda que 25,9% dos estudantes potiguares relataram tristeza constante no mesmo período, índice que sobe para 28,9% na capital. Quando o recorte é por gênero, os números se ampliam de forma expressiva: entre as meninas, 37,9% disseram ter se sentido tristes com frequência, enquanto entre os meninos o percentual foi de 14,1%. A diferença também aparece no indicador mais sensível da pesquisa. No estado, 20,5% das estudantes afirmaram sentir que a vida não vale a pena, ante 10,3% entre os estudantes do sexo masculino. Em Natal, os percentuais são de 23,8% e 11,1%, respectivamente.

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Outro dado que amplia a compreensão do cenário é o percentual de estudantes que relataram vontade de se machucar de propósito ao menos uma vez nos 12 meses anteriores à pesquisa: 30,2% no Rio Grande do Norte. Entre as meninas, o índice alcança 41,1%, enquanto entre os meninos é de 19,5%. Trata-se de um indicador que, por si só, desloca o debate para além da percepção subjetiva e aponta para comportamentos de risco associados ao sofrimento emocional.

A pesquisa também investiga o ambiente familiar e a percepção dos estudantes sobre suas relações mais próximas. No estado, 35,9% dos alunos de escolas públicas e 33,2% de escolas privadas disseram que os pais ou responsáveis não compreenderam seus problemas e preocupações. Entre as meninas, esse percentual chega a 38,4%. Além disso, 49% dos estudantes afirmaram sentir-se muito preocupados com questões do dia a dia na maior parte do tempo ou sempre, e 33% relataram que seus pertences foram mexidos por pais ou responsáveis sem consentimento no último mês.

No plano nacional, os números seguem tendência semelhante. No Brasil, 18,5% dos estudantes declararam ter sentido que a vida não vale a pena, sendo 25% entre meninas e 12% entre meninos. No Nordeste, o índice é de 19,2%. O Rio Grande do Norte, portanto, apresenta percentuais próximos ao cenário regional e nacional, com destaque para a elevação observada na capital.

Os dados da PeNSE não indicam causas isoladas, mas permitem observar padrões consistentes: maior incidência entre meninas, presença do fenômeno tanto na rede pública quanto na privada e associação com níveis elevados de preocupação cotidiana e dificuldades na comunicação familiar. O conjunto das informações sugere um ambiente em que fatores emocionais, sociais e relacionais se entrelaçam na experiência dos estudantes.

Mais do que conclusões definitivas, o levantamento oferece um ponto de partida para reflexão. Os números expõem uma realidade que atravessa escolas, famílias e diferentes contextos sociais, e que demanda leitura atenta, sem simplificações. O desafio está em compreender o que esses dados revelam sobre o cotidiano dos jovens e quais caminhos podem ser construídos a partir desse diagnóstico.