A proposta de criação do Parque Linear da Avenida Engenheiro Roberto Freire tem suscitado reações intensas desde que foi anunciada pela Prefeitura do Natal. Antes mesmo da apresentação do projeto executivo, formaram-se posições antagônicas, com grupos ambientais manifestando preocupação quanto ao possível impacto sobre o Parque das Dunas, enquanto o município sustenta tratar-se de uma intervenção limitada e tecnicamente controlada.
A amplitude do debate confirma a relevância da iniciativa, mas também evidencia a dificuldade da cidade em discutir seu próprio desenvolvimento de forma equilibrada.

O projeto prevê a implantação de um parque linear em uma faixa de 10 hectares ao longo da Roberto Freire, entre a Comjol e o Praia Shopping. A área pertence ao Exército Brasileiro, que a cedeu oficialmente ao município em julho, mediante contrapartida em obras, já formalizada e registrada em cartório.
O terreno encontra-se antropizado, com trechos de vegetação secundária e pontos de degradação visível. É nesse espaço que o poder público propõe criar um corredor de lazer, educação ambiental e integração urbana, com equipamentos de convivência e áreas de contemplação.
O licenciamento ambiental caberá à Secretaria de Meio Ambiente e Urbanismo (Semurb), enquanto a Secretaria de Infraestrutura (Seinfra) ficará responsável pelos estudos técnicos e execução das obras. A prefeitura prevê concluir os estudos até o início de 2026 e iniciar as intervenções ainda no mesmo ano, com execução estimada em seis a oito meses. A ideia é que parte do parque possa ser entregue à população ainda em 2026, após as etapas de licenciamento e compensação florestal.
Entre os pontos mais relevantes está a intenção declarada de realizar um processo participativo. Outdoors com QR Codes serão instalados em vários pontos da cidade para que a população indique quais equipamentos e usos considera prioritários. As contribuições serão avaliadas pela Seinfra e pela Semurb, que decidirão a viabilidade técnica e legal das sugestões.
É uma metodologia que, se bem executada, pode representar avanço no modo como Natal conduz obras públicas, incorporando a consulta popular como etapa de planejamento e não como gesto simbólico.
A principal crítica parte de técnicos do Idema e de membros do Conselho Gestor do Parque das Dunas, que sugeriram área alternativa e alertaram para a existência de trechos com vegetação densa. O secretário Thiago Mesquita afirmou que o plano de manejo da unidade será respeitado e que o projeto distinguirá zonas de uso intensivo (para esporte e lazer) das zonas de uso leve (para trilhas e educação ambiental). A proposta, segundo ele, seguirá o princípio de usar o que foi degradado e preservar o que se regenerou.
Dados apresentados pela Semurb indicam que o parque ocupará apenas 0,9% dos 1.172 hectares do Parque das Dunas. O município promete compensação em dobro para qualquer supressão vegetal — duas árvores plantadas para cada uma removida — e prevê transplante de espécimes sempre que possível. Ressalta-se que a vegetação existente é secundária, não se tratando de mata nativa. São parâmetros que, em tese, tornam o impacto controlável, desde que o cumprimento seja fiscalizado com rigor.
Não é a primeira vez que Natal enfrenta impasse entre expansão urbana e preservação ambiental. O histórico mostra que a ausência de uso planejado costuma resultar em ocupações desordenadas e degradação mais severa. O abandono das bordas das unidades de conservação é, muitas vezes, o que as torna vulneráveis. Ao propor uma ocupação regulada, com acesso público e gestão definida, a Prefeitura coloca a questão sob nova ótica: a de que a presença controlada é uma forma de proteção.
O projeto tem também origem social identificável. A proposta de um parque linear na Zona Sul surgiu durante as audiências do Plano Diretor, a partir de manifestações de moradores. Coube ao prefeito Paulinho Freire concluir a cessão com o Exército, com apoio político do senador Styvenson Valentim, que se ofereceu para auxiliar nas contrapartidas financeiras. A iniciativa, portanto, não nasceu de uma imposição administrativa, mas de uma demanda debatida em fórum público.
Resta, agora, que o debate avance em bases técnicas, e não em slogans. A defesa do meio ambiente não pode significar a negação de qualquer intervenção humana, assim como o argumento do desenvolvimento não deve servir de justificativa para a insensatez. A conciliação entre urbanismo e natureza é o desafio das cidades contemporâneas — e não há solução pronta senão o planejamento responsável.
O Parque Linear da Roberto Freire será uma prova dessa maturidade. Se o projeto cumprir o que propõe — baixo impacto, compensação adequada, transparência e participação —, Natal ganhará um modelo de convivência entre progresso e preservação. Caso contrário, terá perdido mais do que uma oportunidade: terá perdido a chance de demonstrar que é possível crescer sem destruir.