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Opinião

Nem o Exército escapa da desconfiança

Levantamento AtlasIntel aponta níveis variados de percepção sobre órgãos públicos e reforça necessidade de acompanhamento contínuo
Por O Correio de Hoje
25/03/2026 | 15:31

A pesquisa AtlasIntel, divulgada recentemente, ajuda a organizar uma percepção que já vinha se desenhando no ambiente público: a confiança nas instituições brasileiras está mais difusa, fragmentada e, em alguns casos, em retração. O dado mais comentado talvez não esteja apenas nos índices tradicionalmente baixos de avaliação do Congresso, mas no fato de que instituições historicamente mais preservadas, como as Forças Armadas, também passaram a registrar níveis mais modestos de confiança.

O levantamento mostra que a Polícia Federal lidera a percepção positiva, com 56% de confiança entre os entrevistados, enquanto o Congresso aparece na ponta oposta, com apenas 9%. O Supremo Tribunal Federal registra 35%, e o governo federal, 37%. Já o Exército e as Forças Armadas surgem com 27%, um número que, embora ainda significativo, indica um distanciamento em relação ao patamar historicamente associado a essas instituições.

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Esse deslocamento ajuda a compreender que o fenômeno não se limita ao desgaste político mais visível. Ao contrário, ele parece alcançar diferentes esferas institucionais, inclusive aquelas que, por tradição, mantinham uma imagem mais estável junto à sociedade. Durante décadas, as Forças Armadas foram associadas a valores como disciplina e ordem, muitas vezes percebidas como menos expostas ao cotidiano das disputas políticas. O resultado atual sugere que essa percepção vem sendo reavaliada.

Há, nesse movimento, dois elementos que se cruzam. De um lado, um cidadão mais atento e menos disposto a aceitar automaticamente a autoridade institucional. De outro, um ambiente marcado por episódios, decisões e tensões que acabam aproximando essas instituições do debate político, tornando-as mais visíveis — e, por consequência, mais sujeitas a avaliações críticas.

O caso do Congresso ilustra um padrão já conhecido de baixa confiança, mas o dado mais relevante é a expansão desse sentimento para além dos atores políticos tradicionais. Quando diferentes instituições passam a compartilhar níveis semelhantes de questionamento, o debate deixa de ser sobre casos isolados e passa a indicar uma tendência mais ampla.

Nesse cenário, a disputa entre Poderes, frequentemente destacada no debate público, parece ter alcance limitado para explicar o fenômeno. A pesquisa sugere que o problema não está concentrado em um único ator, mas distribuído. Em termos simples, não se trata apenas de quem está mais ou menos desgastado, mas de um ambiente em que o nível geral de confiança se tornou mais instável.

A leitura desse quadro não precisa necessariamente conduzir a conclusões alarmistas, mas oferece um ponto de atenção. A confiança institucional costuma ser construída de forma gradual e também se altera de maneira progressiva. Quando diferentes pilares passam a registrar avaliações mais moderadas, o sinal é de que a relação entre sociedade e instituições está em processo de ajuste.

Mais do que identificar culpados, o momento parece exigir compreensão sobre como essas percepções se formam e o que pode contribuir para reequilibrá-las. Em um ambiente democrático, a confiança não é um dado permanente, mas um resultado que se constrói ao longo do tempo — e que, como mostra o levantamento, precisa ser continuamente observado.