A dificuldade do governo brasileiro em conduzir políticas macroeconômicas capazes de reduzir o risco de uma crise fiscal e baixar de forma consistente a taxa de juros já representa, por si só, um desafio relevante. Entretanto, há um problema estrutural ainda mais profundo: a inexistência de uma política de Estado voltada para os investimentos. Essa lacuna tem provocado efeitos negativos em áreas estratégicas do desenvolvimento nacional, atingindo setores como defesa, infraestrutura, comunicações, tecnologia e inteligência artificial, entre diversos outros.
A fragilidade atual é resultado direto da ausência de uma política industrial e tecnológica consistente, estruturada para o médio e o longo prazo. A falta de planejamento e previsibilidade compromete o ambiente de negócios e ajuda a explicar o progressivo enfraquecimento da indústria brasileira. Sem diretrizes claras, o chamado custo Brasil torna-se um obstáculo adicional à inovação, à qualificação da mão de obra e à ampliação da capacidade produtiva, reduzindo a competitividade e colocando em risco a sustentabilidade econômica do país no horizonte mais amplo.

Um exemplo recente dessa fragilidade aparece no setor ferroviário. A indústria nacional perdeu todas as disputas relevantes envolvendo aquisição de equipamentos e material rodante. Entre os casos mais emblemáticos estão a compra de 24 trens de passageiros para Belo Horizonte, fabricados na China pelo Consórcio Comporte CRRC; a aquisição de 44 trens para o Metrô de São Paulo; a encomenda de 62 carros de passageiros para a Vale, em 2024; a compra de duas locomotivas chinesas; e ainda os 22 trens previstos para a operação da linha Trem Intercidades (TIC) São Paulo-Campinas, que inclui a concessão da Linha 7-Rubi.
Esse cenário decorre, em grande medida, da ausência de isonomia tributária nas licitações públicas, o que coloca empresas brasileiras em posição desfavorável diante de concorrentes estrangeiros. O problema se agrava com o uso do pregão eletrônico reverso em contratos de grande porte, mecanismo que acaba abrindo espaço para práticas predatórias. Empresas estrangeiras, especialmente chinesas, contam frequentemente com apoio estatal que lhes permite oferecer preços abaixo do custo real de produção — condição inviável para a indústria nacional. Soma-se a isso o uso indevido de regimes de ex-tarifários, obtidos por meio de argumentos relacionados a prazos e custos que acabam distorcendo a concorrência e prejudicando o setor produtivo brasileiro.
Na prática, companhias estrangeiras atuam respaldadas por governos dispostos a subsidiar prejuízos para garantir presença em mercados estratégicos. Esse modelo de competição assimétrica fragiliza a indústria brasileira e produz consequências diretas sobre emprego, renda e arrecadação pública. Se a produção dos 128 trens mencionados tivesse ocorrido no país, estima-se que mais de 22 mil empregos diretos e indiretos teriam sido gerados — cerca de 20 mil apenas no Estado de São Paulo — além de representar um acréscimo aproximado de R$ 2,5 bilhões na massa salarial nacional.
A carência de uma política estruturada de investimentos também se manifesta na área de infraestrutura logística. Hoje, aproximadamente metade dos produtos agrícolas exportados pelo Brasil é escoada pelos portos do Arco Norte — Miritituba, Barcarena e Santarém. Esses terminais enfrentam gargalos cada vez mais graves à medida que a produção exportável cresce, sobretudo pela precariedade e pela falta de manutenção adequada das estradas que conectam as regiões produtoras aos portos. A ausência de uma política nacional para hidrovias fica evidente nas idas e vindas das concessões nessa região, o que pode comprometer ainda mais o escoamento da produção agrícola.
Problemas semelhantes aparecem também em outras áreas logísticas, como no sul do país. No Porto de Santos, principal complexo portuário brasileiro, surgem novas incertezas com a possibilidade de exclusão de armadores nacionais do maior leilão portuário recente — o do terminal de contêineres. A deficiência estrutural da infraestrutura brasileira torna-se ainda mais evidente na falta de capacidade de armazenagem, insuficiente para absorver as crescentes safras agrícolas e evitar perdas ao longo da cadeia produtiva.
A ausência de uma política nacional consistente de investimentos também pode ser observada em outros setores sensíveis para o desenvolvimento do país. É o caso da exploração de minerais críticos, da indústria de defesa, do setor elétrico, da infraestrutura digital e da instalação de data centers. Neste último caso, permanece a incerteza quanto à aprovação da Redata, iniciativa que previa incentivos para a implantação dessas estruturas no território brasileiro.
Nesse contexto, e considerando que o comércio exterior brasileiro já ultrapassa US$ 0,5 trilhão, torna-se pertinente discutir a criação de um Eximbank brasileiro. Uma instituição dessa natureza poderia ampliar o financiamento às exportações industriais, fortalecendo a presença do país em mercados internacionais e oferecendo suporte estratégico às empresas nacionais.
A fragilidade da política de investimentos ficará ainda mais evidente com a entrada em vigor do Acordo Mercosul–União Europeia. A baixa competitividade da indústria brasileira, resultado de escolhas equivocadas e da persistente falta de iniciativas para reduzir o custo Brasil, poderá limitar significativamente o acesso de produtos nacionais ao mercado europeu. Mesmo com tarifa zero, empresas brasileiras terão de disputar espaço com concorrentes coreanos, chineses, japoneses e europeus, que operam em ambientes produtivos muito mais competitivos.
Por outro lado, o acordo também abre oportunidades para atrair novos investimentos para áreas de interesse estratégico do país. Para aproveitar esse potencial, será indispensável construir uma política capaz de garantir condições equitativas para as empresas nacionais. Um caminho possível seria exigir que empresas estrangeiras interessadas em se instalar no Brasil estabeleçam joint ventures ou associações com companhias brasileiras, cumprindo desde o início regras de conteúdo nacional definidas pelo governo e pelo BNDES.
Além de uma política clara de estímulo aos investimentos e de fortalecimento da competitividade, o país também precisa de instrumentos eficazes de defesa comercial. Episódios recentes — como a imposição e posterior recuo em tarifas de importação no setor eletroeletrônico — evidenciam a necessidade de maior previsibilidade e coerência nas decisões econômicas. Em setores estratégicos e em circunstâncias específicas, medidas de salvaguarda e de antidumping devem ser aplicadas com critérios técnicos, objetivos e livres de interferências políticas.
Sem uma estratégia nacional consistente, capaz de orientar investimentos e fortalecer a competitividade da economia, o Brasil continuará desperdiçando oportunidades, perdendo espaço industrial e comprometendo seu próprio futuro econômico. A construção de uma política de Estado para investimentos deixou de ser apenas uma escolha — tornou-se uma necessidade urgente para o desenvolvimento do país.