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Opinião

Erika Hilton e o erro político na Comissão da Mulher

Discussão sobre identidade dá lugar a questionamentos sobre capacidade de articulação, construção de consensos e efetividade na agenda das mulheres
Por O Correio de Hoje
18/03/2026 | 15:10

A escolha da deputada Erika Hilton (PSOL-SP) para presidir a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados reavivou uma controvérsia que já se anunciava. De um lado, surgiram críticas que contestam sua presença no colegiado sob o argumento de que ela não seria mulher. De outro, reações imediatas saíram em sua defesa, sustentando que, como mulher trans, sua identidade deve ser reconhecida — e que qualquer questionamento nesse sentido configuraria transfobia. Em pouco tempo, o debate foi capturado por uma disputa identitária que pouco contribui para esclarecer o que realmente importa.

Esse não é o ponto central. À luz das transformações culturais e jurídicas contemporâneas, Erika Hilton é uma mulher trans — e é assim que deve ser considerada. Persistir na discussão sobre sua identidade empobrece o debate público e desvia a atenção da questão essencial. O problema relevante é outro: ela reúne as condições necessárias para representar a pluralidade das mulheres brasileiras? Ou seu perfil político, marcado por forte carga ideológica, comportamento frequentemente divisivo e retórica confrontacional, tende mais a acentuar divisões do que a promover convergência?

Opinião Correio

A Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher não pode ser tratada como uma trincheira de afirmação identitária. Trata-se de um espaço institucional que exige foco em políticas públicas concretas e na construção de consensos mínimos em torno de temas centrais: combate à violência doméstica, equidade salarial, acesso a creches, saúde reprodutiva e inserção no mercado de trabalho. Esses desafios demandam capacidade de diálogo, articulação política e senso de prioridade.

Nesse contexto, a escolha de quem ocupa esse espaço não pode se limitar à lógica da representatividade simbólica. Representar vai além de personificar uma causa. Significa traduzi-la em linguagem acessível, ampliá-la para além de grupos específicos e torná-la viável no ambiente político. Em última instância, trata-se de construir maiorias, não apenas afirmar identidades.

Não se ignora que Erika Hilton construiu sua trajetória em torno de pautas legítimas, especialmente ligadas aos direitos das minorias. No entanto, sua atuação também tem sido marcada por um estilo que privilegia o confronto em detrimento da escuta e da negociação. Em um cenário político já polarizado, cabe questionar se esse perfil contribui para fortalecer a agenda das mulheres ou se, ao contrário, a restringe a um campo ideológico, afastando apoios indispensáveis para avanços concretos.

A experiência política brasileira mostra que representatividade e liderança não são conceitos equivalentes. Nem todo símbolo é capaz de articular, assim como nem toda voz de grande alcance é necessariamente a mais eficaz para produzir resultados. Há momentos em que menos ênfase na identidade e mais habilidade institucional fazem a diferença.

Isso não implica deslegitimar lideranças trans. A diversidade é um valor essencial em uma democracia plural. Mas ela, por si só, não substitui critérios de efetividade. A questão que se impõe é objetiva: quem tem maior capacidade de avançar a agenda das mulheres no Brasil?

Este jornal reconhece a identidade de gênero da deputada Erika Hilton, mas entende que sua escolha para a presidência da comissão não é a mais adequada para promover, com amplitude, equilíbrio e resultados concretos, os interesses das mulheres brasileiras.