Há momentos em que os números, tão acostumados a oferecer segurança, passam a provocar desconfiança. Não porque tenham deixado de existir, mas porque passaram a dizer coisas diferentes demais ao mesmo tempo. É o que aponta o analista político, jornalista e publicitário Neto Queiroz.
No mesmo dia, duas pesquisas sobre o cenário eleitoral do Rio Grande do Norte entregaram retratos difíceis de conciliar. No levantamento do Instituto Seta, Allyson Bezerra aparece com 37% das intenções de voto, contra 21% de Álvaro Dias — uma vantagem de 15 pontos percentuais. Já na pesquisa da Consult, o quadro se inverte: Álvaro surge com 31%, enquanto Allyson tem 29%, em empate técnico com leve vantagem de 2 pontos para o ex-prefeito de Natal.

Entre uma e outra, abre-se um intervalo de 17 pontos. Não é oscilação; é mudança de paisagem.
Neto Queiroz propõe olhar além do impacto inicial. A primeira questão envolve a substituição de Rogério Marinho por Álvaro Dias. Na Consult, Rogério tinha 28,8% em dezembro e Álvaro inicia março com 31,2% — crescimento de cerca de 3 pontos. Na Seta, o movimento se repete: Rogério tinha 17,3% e Álvaro chega a 21,5%, avanço de pouco mais de 4 pontos.
A segunda análise trata do impacto da operação da Polícia Federal sobre Allyson Bezerra. Na Consult, ele recua de 30,5% para 29,2% — queda de 1,3 ponto. Na Seta, de 39% para 37%, redução de 2 pontos. Variações dentro da margem de erro, sem efeito relevante.
Resolvidas essas variáveis, resta a questão central: por que os números divergem tanto?
Segundo Neto Queiroz, a explicação está no ambiente que produz as pesquisas. Cada instituto alcança recortes distintos do eleitorado. A Consult tem histórico de atuação junto a ambientes mais identificados com a direita, enquanto a Seta dialoga, em diferentes momentos, com segmentos mais próximos ao campo progressista.
Mas há um limite para essa explicação. Quando duas pesquisas, no mesmo período, não apenas variam, mas apontam direções opostas — uma com liderança ampla e outra com empate invertido — a divergência deixa de ser apenas metodológica. Nem toda diferença é técnica. Há números que exigem um olhar mais atento sobre como foram construídos.
O que se apresenta, portanto, não é apenas diversidade de leitura, mas uma disputa silenciosa entre versões que nem sempre se sustentam com o mesmo grau de consistência.
Walter vê colapso e nega espaço
O vice-governador do Rio Grande do Norte, Walter Alves (MDB), explicou pela primeira vez por que decidiu não assumir o comando do Estado numa eventual renúncia de Fátima Bezerra (PT). Em nota distribuída pelo MDB, partido que preside no RN, Walter afirmou que não poderia aceitar ser “responsável pelo colapso financeiro do Estado em apenas oito meses”.
A posição reforça o rompimento político iniciado em janeiro, quando ele deixou a aliança com o PT, anunciou pré-candidatura a deputado estadual e declarou apoio ao prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra (União), como nome ao Governo do Estado. Agora, com Fátima decidida a permanecer no cargo até o fim do mandato, Walter também confirmou que seguirá como vice-governador até 5 de janeiro de 2027.
Na nota, ele destacou que a legislação eleitoral não o obriga a renunciar ao mandato para disputar vaga de deputado estadual. Disse ainda que recebeu a missão de ser vice e que continuará cumprindo esse papel. O MDB acrescentou que Walter não teve “espaço na administração estadual”, embora o partido tenha ocupado cargos relevantes no governo, como secretarias e a presidência da Caern.
As declarações vieram na mesma semana em que Fátima confirmou desistência da disputa ao Senado. Segundo a governadora, sua candidatura dependia de Walter assumir o governo. Sem isso, haveria eleição indireta na Assembleia, onde o PT não reúne os 13 votos necessários para eleger sucessor. Fátima atribuiu a decisão de Walter a um movimento articulado para impedir a permanência do PT no comando político do Estado.