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Opinião

Democracia americana sob desgaste

Avaliações indicam queda em índices de liberdade e concentração de poder no Executivo
Por O Correio de Hoje
06/04/2026 | 14:50

Às portas dos 250 anos de independência, os Estados Unidos atravessam um momento que contrasta com a própria origem de seu modelo político. No fim do século XVIII, o mundo bem-sucedido era dominado por monarquias. A experiência iniciada em 1776, consolidada pela Constituição de 1789, rompeu esse padrão e introduziu um modelo que se difundiria globalmente. A ideia de república democrática ganhou escala ao longo do tempo. O cenário atual, porém, carrega uma ironia evidente. A celebração de um quarto de milênio ocorre em meio a sinais consistentes de erosão democrática.

Os impactos do primeiro ano do segundo governo de Donald Trump aparecem nas principais avaliações recentes sobre democracia e liberdade. A Freedom House indica que, em 2025, Estados Unidos, Bulgária e Itália registraram as maiores quedas entre países considerados livres. Já o V-Dem Institute aponta uma concentração de poder rápida e agressiva na Presidência durante o novo mandato. O relatório divulgado em março expressa esse diagnóstico com uma imagem simbólica. A capa traz a bandeira americana acompanhada da sigla SOS. “A velocidade com que a democracia americana tem sido desmantelada não tem precedentes na História moderna”.

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A Freedom House descreve um quadro de disfunção crescente no Legislativo combinado com avanço do Executivo. O ambiente se agrava diante de um Congresso dominado por parlamentares republicanos receosos de perder apoio político de Trump. Em sua análise sobre 195 países, a entidade afirma que “a crescente pressão sobre a capacidade da população de exercer a liberdade de expressão e as ações do novo governo para enfraquecer as salvaguardas anticorrupção contribuíram para a mudança negativa”. O movimento não começou agora. A volta de Trump intensificou uma trajetória já em curso. Desde 2005, os Estados Unidos perderam 12 pontos em uma escala de 100, desempenho inferior ao de quase todos os países livres no período, com exceção de Nauru e Bulgária.

No ranking do V-Dem, o país caiu do 20º para o 51º lugar entre 179 nações. A leitura sobre o primeiro ano do governo converge com a da Freedom House. A perda de força democrática aparece associada a excessos do Executivo, além de ataques à imprensa, às universidades e a opositores. O relatório registra um exemplo que considera emblemático. “Talvez o exemplo mais ilustrativo seja a própria declaração do presidente de que o único limite a seu poder é ‘sua própria moral’ e de que apenas os tribunais e não o Congresso têm poder para restringir sua agenda doméstica ‘em certas circunstâncias’ ”.

O V-Dem aponta que o nível democrático atual dos Estados Unidos se aproxima do observado em 1965, ano em que foi sancionada a lei que proibiu a discriminação racial nas eleições pelo presidente Lyndon B. Johnson, em ato acompanhado por Martin Luther King Jr.. A comparação, no entanto, não indica retorno àquele contexto. “As falhas que afetavam a democracia americana durante a era do Movimento por Direitos Civis diziam respeito principalmente a dispositivos legais sobre o direito ao voto e outros direitos políticos ou civis. As graves deficiências criadas na administração Trump são profundamente diferentes”. No marco de 250 anos desde a independência, o quadro descrito expõe uma condição delicada para um país que por muito tempo foi associado à ideia de democracia.