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Roberto Serquiz

O custo do populismo: pautas-bombas em ano eleitoral

Confira o artigo de Roberto Serquiz deste sábado 18
Roberto Serquiz
18/04/2026 | 05:18

O ano de 2026 traz consigo a efervescência típica dos períodos eleitorais no Brasil. Historicamente, é um momento em que o debate político flerta com o populismo. No Congresso Nacional, essa dinâmica se traduz na tramitação acelerada das chamadas “pautas-bombas” — projetos de lei que, sob o verniz de benefícios imediatos, escondem ameaças ao equilíbrio fiscal.

Quando parlamentares votam motivados puramente pelo calendário das urnas, o rigor técnico é frequentemente esquecido. Nesses momentos, a prudência recomenda que votações de grande impacto estrutural sejam adiadas para os anos seguintes, quando o ambiente político permite uma análise mais demorada, criteriosa e menos passional.

debate politico
O custo do populismo: pautas-bombas em ano eleitoral - Foto: Freepik (wavebreakmedia_micro)

É imperativo lembrar, respeitosamente, a cada congressista as graves repercussões de votos que impõem restrições ao empreendedorismo ou que elevam os custos da produção industrial. O Brasil já convive com o peso do chamado “Custo Brasil”, estimado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) em R$ 1,7 trilhão por ano — o equivalente a 20% do nosso Produto Interno Bruto (PIB). Adicionar novos fardos a essa conta é sufocar a capacidade de investimento e a geração de empregos.

Um exemplo latente dessa ameaça é o debate sobre a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1. Não é a hora! O momento é inapropriado para a votação de algo tão sério, com tanta repercussão para o presente e para o futuro. Neste sentido, em 13 de abril de 2026, a CNI enviou aos congressistas o manifesto intitulado “Escala 6 X 1: o Brasil precisa de mais competitividade, não de mais custos”. A entidade alerta que a redução de horas trabalhadas, sem o correspondente aumento de produtividade, resultará em um salto imediato nos custos operacionais das empresas, comprometendo a eficiência e a competitividade do país no mercado global.

A preocupação com o impacto de legislações irresponsáveis não se restringe ao setor privado. O setor público também é vítima das pautas-bombas. Um estudo inédito divulgado em 24 de fevereiro de 2026 pela Confederação Nacional de Municípios (CNM), durante a Mobilização Municipalista, revelou que a aprovação desse conjunto de medidas pelo Congresso Nacional pode causar um rombo de R$ 270 bilhões aos cofres municipais (propostas que aumentam despesas, como novos pisos salariais e aposentadorias especiais, sem prever fontes de financiamento). Trata-se de um risco direto à sustentabilidade fiscal dos entes locais e à continuidade da prestação de serviços públicos essenciais à população.

Para balizar o diálogo com o Poder Legislativo, alinhar posicionamentos e evitar retrocessos, a CNI elabora anualmente, desde 1995, a Agenda Legislativa da Indústria. O documento, construído em parceria com federações estaduais, associações setoriais e sindicatos, reúne as proposições prioritárias para o setor. Espera-se que seja um instrumento de leitura e profunda análise.

A força de um Estado está no ambiente que cria, não no peso que impõe. Direto ao ponto: a jornada 6 por 1 não deve ser pauta eleitoral, mas uma decisão técnica, guiada pela produtividade e competitividade — afinal, o desenvolvimento exige visão de longo prazo, e medidas imediatistas cobram um preço alto no futuro.