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Coluna

Enquanto a desigualdade persiste, Bodó escolhe jogos de azar

Leia o artigo de Dinarte Assunção desta quinta-feira 12
Dinarte Assunção
12/12/2024 | 05:36

A pequena cidade de Bodó, localizada no Seridó potiguar, está no centro de uma polêmica após a prefeitura decidir credenciar empresas para operar jogos de azar, como cassinos virtuais e loterias online. A investigação do Blog do Dina expõe o contraste dessa iniciativa com os desafios sociais da cidade, que incluem um IDH considerado médio, alta taxa de mortalidade infantil e desigualdade evidente, apesar de um PIB per capita elevado pela mineração.

O credenciamento, oficializado pelo edital 001/2024, incluiu três empresas. Duas delas possuem perfis questionáveis: com poucos dias de existência e capitais sociais baixos, apresentam fragilidade para operar em um setor sensível e de alto impacto. A terceira possui mais experiência, mas sua presença em um município como Bodó, de apenas 2.306 habitantes, gera dúvidas sobre os reais objetivos da iniciativa. Até o momento, a prefeitura não esclareceu quais seriam os benefícios esperados dessa decisão.

Com indicadores que pedem urgência em saúde, educação e saneamento básico, a escolha por regulamentar cassinos e apostas levanta críticas. Como aponta o Blog do Dina, esse tipo de investimento, embora possa gerar receitas, também carrega riscos significativos, como o aumento do endividamento, dependência e problemas sociais. Em cidades pequenas e com populações vulneráveis, os impactos negativos tendem a ser ainda mais acentuados.

O contraste entre a realidade de Bodó e a política adotada pela gestão municipal é gritante. Enquanto a cidade carece de infraestrutura básica, a aposta da prefeitura em um setor altamente controverso parece ignorar as necessidades mais urgentes da população. Especialistas sugerem que priorizar investimentos em saúde e educação teria um impacto muito mais transformador para a comunidade.

A escolha pela exploração de jogos de azar também deixa perguntas sobre transparência e prioridades administrativas. Por que empresas sem histórico sólido foram escolhidas? Como essa iniciativa se alinha com os interesses da população? E, sobretudo, quem será o real beneficiário desse projeto? Essas questões permanecem sem resposta e aumentam a sensação de desalinhamento entre o poder público e as demandas populares.

Como aponta o Blog do Dina, a decisão da prefeitura de Bodó exemplifica um problema recorrente em pequenos municípios brasileiros: o distanciamento entre as políticas implementadas e as reais necessidades da população. Em vez de usar os recursos públicos para atacar desigualdades históricas e promover o bem-estar coletivo, administrações como a de Bodó optam por projetos que, no mínimo, carecem de um estudo mais aprofundado sobre seus impactos sociais e econômicos.

O caso de Bodó é um reflexo de como decisões administrativas podem não apenas desperdiçar oportunidades, mas também gerar consequências que aprofundam problemas estruturais. No fim das contas, a população, que deveria ser a maior beneficiada, pode se tornar a principal vítima de escolhas desconectadas da realidade local.

Dinarte Assunção é jornalista

Cidade de Bodó, no RN / Foto: Prefeitura de Bodó
Cidade de Bodó, no RN / Foto: Prefeitura de Bodó