O enfrentamento da crise fiscal será um dos maiores desafios do próximo governador eleito no Rio Grande do Norte. E quem disse isso ontem foi Cadu Xavier, secretário de Fazenda e chefe da equipe econômica do atual governo. O mesmo Cadu, porém, disse que esse não será um tema da campanha eleitoral. Para ele, isso não está entre as prioridades do eleitorado. Na avaliação de Cadu, a população quer saber de serviços funcionando — escolas abertas, hospitais atendendo, polícia nas ruas — e não de gráficos sobre despesa com pessoal ou relatórios de execução orçamentária.
É verdade, mas não deveria ser assim. A constatação feita por Cadu é o retrato de um Estado que prefere discutir os sintomas em vez da doença. A precariedade dos serviços públicos — aquilo que o cidadão sente todos os dias — é consequência direta do descontrole das contas. Não há educação, saúde ou segurança que resistam à falta de dinheiro.

Este jornal defende que o controle das contas públicas esteja no centro do debate eleitoral em 2026. O resto é consequência. É lamentável que a maioria dos pré-candidatos não esteja falando sobre como vai enfrentar o problema.
Há poucas semanas, reportagem do AGORA RN mostrou: o Rio Grande do Norte continua sendo o Estado com maior gasto com pessoal em relação à receita em todo o Brasil. Enquanto outros Estados usam parte da receita para investir em infraestrutura, inovação e desenvolvimento econômico, o Rio Grande do Norte mal consegue tapar os buracos do presente. O Tesouro Estadual virou um pagador de folha e aposentadorias.
O problema é estrutural. A Fecomércio mostrou, durante a discussão sobre o aumento do ICMS, que o RN destina apenas 2% da receita a investimentos. Na Paraíba, o percentual é de 13%. Essa diferença ajuda a explicar o avanço do estado vizinho.
Apesar de alguns avanços pontuais, a verdade é que o Rio Grande do Norte está à beira de um colapso fiscal. A despesa com pessoal ainda ultrapassa o limite da Lei de Responsabilidade Fiscal — somos o único Estado do País nessa situação. O déficit previdenciário é um sorvedouro de recursos: R$ 150 milhões por mês saem do Tesouro apenas para cobrir a aposentadoria de inativos.
Diante de um cenário tão alarmante, é incompreensível que o tema seja tratado com tamanho descaso por aqueles que pretendem disputar o governo. O silêncio dos pré-candidatos sobre a questão fiscal é revelador — e covarde. Falar de déficit, de folha, de cortes e de reformas não rende aplausos, mas é o único caminho possível.
O senador Rogério Marinho, pré-candidato do PL ao governo, é o único que tem falado sobre o tema. Entre outras “medidas impopulares”, já disse que, se eleito, não dará aumento real de salário a servidores, sentará com representantes dos demais Poderes para renegociar o repasse constitucional e vai trabalhar pela venda da Caern. É alguma coisa em meio ao deserto de propostas nessa área.
O eleitor precisa entender — e os políticos precisam ter coragem de dizer — que melhorar os serviços públicos depende antes de equilibrar as finanças. Não há como oferecer saúde de qualidade, escolas modernas e segurança eficiente sem garantir que o Estado tenha dinheiro para pagar por isso.
Ignorar essa realidade é enganar o povo. É vender a ilusão de que basta “gestão eficiente” para consertar um sistema falido. Nenhuma gestão é eficiente quando o orçamento está comprometido de antemão.
O Rio Grande do Norte precisa de uma liderança que diga o óbvio: sem reforma da máquina pública, não haverá crescimento; sem coragem fiscal, não haverá futuro. Isso inclui revisar planos de carreira, frear promoções automáticas, repensar privilégios e adequar a previdência à realidade — medidas duras, mas necessárias.
Ao mesmo tempo, é preciso abrir espaço para o investimento produtivo. O Estado precisa ser parceiro e não obstáculo de quem gera emprego. Modernizar a legislação ambiental, destravar licenças, acelerar parcerias público-privadas — tudo isso é parte da solução. A estagnação fiscal não se resolve apenas com cortes; resolve-se também com crescimento.
O colapso das contas públicas não é um tema técnico: é o pano de fundo de todos os dramas sociais do RN. Fingir o contrário é uma irresponsabilidade política e moral.
O Rio Grande do Norte precisa, urgentemente, de um debate eleitoral honesto, que olhe para o tamanho do buraco antes de prometer o céu. O contribuinte já paga caro demais para sustentar um Estado que entrega cada vez menos. O próximo governador não pode repetir o erro de tratar a crise fiscal como nota de rodapé. É hora de encará-la como manchete principal — e agir antes que seja tarde demais.