Relato
Medo e recuperação: a vida após Covid-19
Potiguares infectados pelo coronavírus falam sobre os dramas do isolamento social, da recuperação da doença, do retorno às atividades diárias e, principalmente, da volta ao convívio com a família
Por Ana Lourdes Bal - Publicado em 27/04/2020 às 07:40

“A ‘gripe’ pode te levar para a estatística crescente de óbitos no país. Só sabe o peso do fardo, quem carrega o saco nas costas”, diz Jalisson Ferreira, um dos potiguares que contraíram a Covid-19. Ele tem 23 anos, é repórter e mora na cidade de Assú, localizada a 208km de Natal.

Ele sentiu febre, tosse seca, dor de cabeça e uma moleza no corpo no dia 26 de março e se dirigiu ao Pronto Socorro da cidade, onde foi constatado que ele se enquadrava em um caso suspeito de coronavírus. Coletaram materiais para a análise e, em seguida, iniciou o processo de isolamento domiciliar. No dia 2 de abril, ele recebeu uma ligação. O exame havia dado positivo para Covid-19.

“Foi uma notícia que eu não esperava receber. A partir do momento que recebi o resultado, foi um choque. Eu pensava no pior, principalmente nos momentos das recaídas. Tudo ali passou a mudar minha rotina, já que eu tenho esse compromisso com a sociedade assuense, manter informados, principalmente nesse momento de pandemia, e fui diagnosticado com o vírus”, conta ele.

No dia 7 de abril, chegou a ter que ir de ambulância para o pronto socorro, onde foi medicado com duas injeções. Alguns minutos depois recebeu alta e retornou para casa. “A equipe cogitou me encaminhar para um hospital de referencia em Mossoró, mas graças a Deus não precisou”, explica.

Jalison diz que o isolamento foi um momento difícil, que parecia não acabar. “Passei quase 20 dias dentro do meu quarto, sem ter contato com nenhum familiar meu. Não via luz do dia nem a noite. Os dias pareciam não passar. Foram momentos ruins que não desejo que ninguém passe”, narra ele. Dentro desse tempo, ele teve algumas recaídas por conta doença, sentindo dor de cabeça, febre, sensação de falta de ar e perda do paladar.

O repórter mora com seus pais, irmãos e sobrinho. Nesse tempo isolado, ele não teve contato nenhum com a família. A única pessoa que ele via era sua mãe, que ia deixar sua comida rapidamente. Ninguém da sua casa contraiu a doença.

No dia 14 de abril, a equipe epidemiológica foi até a casa do rapaz e deu alta. No outro dia, ele realizou o contra-teste da doença. “Resultado saiu na segunda, e eu iniciei minha vida normal”, explica.

Ele conta que a única sequela que ficou foi o abalo, por ter que mudar a rotina rapidamente. “Mas como tornei o caso público, através do meu blog e redes sociais, recebi muitas mensagens positivas, e isso me ajudou muito, principalmente o psicológico”.

Ele recomenda que as pessoas fiquem em casa e que cumpram o que é determinado pelos órgãos de saúde pública, Organização Mundial de Saúde – Ministério da Saúde – Governo do Estado e Governo Municipal.

“A “gripezinha” pode custar sua vida! Mantenham cuidados para não contrair o vírus. Quem acha que isso é “besteira” está enganado, a gripe pode te levar para a estatística crescente de óbitos no pais. Só sabe o peso do fardo, quem carrega o saco nas costas”, afirma Jailson Ferreira.

Pai e filho: um drama familiar

Já o advogado Rodrigo Cabral, mora em Natal e tem 30 anos. Ele mora com seus pais e seu irmão mais novo. Ele atualmente está aguardando o resultado do exame que fez na segunda-feira passada (20). Seus pais testaram positivo para a doença e Rodrigo teve sintomas do Covid-19. Ele e sua família estão isolados desde 23 de março.

“Primeiramente, entramos em quarentena em razão do decreto estadual que passou a limitar o funcionamento da nossa empresa. Pouco dias depois disso, meu pai, José Espedito, passou a apresentar os primeiros sintomas, o que nos levou a seguir com ainda mais ênfase. Saímos apenas para buscar atendimento hospitalar”, diz.

O advogado conta que a primeira semana de isolamento foi bastante desgastante. “Meu pai apresentava uma certa complicação no quadro de saúde dele. A febre e a tosse seca eram constantes. As informações sobre medicamentos também eram diversas”, narra ele. “Com uma semana que resolvemos buscar uma avaliação clínica mais precisa. A médica entendeu que ele precisava ser internado porque havia identificado uma inflamação no pulmão”.

José permaneceu hospitalizado por nove dias e recebeu alta no sábado passado (18). “Foi um período bem angustiante, sobretudo porque os sintomas foram persistentes e havia muita incerteza quanto ao tratamento mais recomendado. Mas após esse período de internação, a sensação é de alívio pela superação, especialmente diante de tantas notícias ruins”, diz o advogado.

O pai dele atualmente está clinicamente bem e evita realizar esforços. Ele ficou com sequelas por conta do tratamento da Covid-19, terá que realizar acompanhamento com um pneumologista e usar medicação para tratar a hepatite decorrente dos remédios utilizados no tratamento.

Já Rodrigo diz que está com perda do olfato e do paladar. Todos na sua casa também sentem o mesmo. “Acredito na importância de uma mensagem de esperança e tranquilidade, em que pese o atual cenário de incertezas, bem como que não subestimem a importância das medidas de prevenção que tanto estão sendo recomendadas. Mas também acredito que o importante seria o convite à reflexão, sobretudo porque, após tantos dados, não há mais qualquer ambiente para tratar esta pandemia com desdém”, encerra ele.

Tive Covid-19: estou imune?

Segundo o infectologista Alexandre Motta, a maioria das viroses dá imunidade definitiva. “Entre tanto, há dois relatos de casos, um no Japão e outro na China, de pessoas que pegaram por uma segunda vez. Como o vírus é novo, não sabemos ainda, por ventura, poderá haver um grau de pessoas que não tenha ou não faça imunidade”, explica.

Já sobre as sequelas, é o mesmo, se sabe pouco. “Algumas pessoas ficam com dificuldade pulmonar, mas não se sabe ainda qual o percentual das pessoas que são acometidas. Mais recentemente, saiu uma pesquisa que diz que as pessoas podem ter alterações cerebrais”, diz o infectologista. “Como tudo é muito novo a gente ainda não tem muita certeza do que poderá acontecer com as pessoas convalescentes”, reforça Alexandre.