O governo Lula anunciou que zerou a fila do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Só que 235 mil pedidos continuam sem resposta há mais de 45 dias — prazo que o próprio Executivo vinha usando para classificar um requerimento como atrasado.
O que mudou foi a régua. Em vez de contar quantos pedidos estão parados, passou-se a comparar o estoque de solicitações com o tanto que entra a cada mês. No dia 31 de agosto, 1,252 milhão de requerimentos aguardavam análise; naquele mesmo mês, entraram 1,394 milhão. Com o acumulado abaixo do que chega mensalmente, o governo declarou ter chegado ao “atendimento sem fila”.

A composição dos pedidos parados
A presidente do INSS, Ana Cristina Silveira, abriu a conta: 640 mil daqueles processos eram recentes e 378 mil estavam parados esperando papel que o próprio segurado tem de levar. Os 235 mil restantes são os que ultrapassaram os 45 dias sem resposta — um grupo que encolheu 87% desde janeiro, quando reunia 1,9 milhão de requerimentos.
“Mesmo assim, podemos afirmar categoricamente que não há fila no atendimento inicial, pois o número de pedidos em análise hoje é inferior aos novos processos que entraram em agosto”, declarou. Ela explica que boa parte do que ficou para trás são casos complicados, que ganharam grupos de trabalho montados só para eles.
“Não tem truque, não tem pegadinha”
Wolney Queiroz, que comanda a Previdência Social, foi cobrado justamente sobre a troca de parâmetro. Negou que algum critério tenha mudado e classificou os 235 mil pedidos antigos como “resíduo”.
“Não mudamos critério nenhum. Nós estamos apreciando, analisando pedidos como nunca analisamos, e estamos concedendo benefícios como nunca concedemos. São números reais. Então não tem truque, não tem pegadinha”, afirmou.
Por nota, a pasta detalhou o que entende por atendimento sem fila: o instituto precisa dar conta de mais processos do que recebe. Julho ilustra bem — chegaram 1,435 milhão de pedidos novos e saíram 1,658 milhão de respostas. O estoque, que já beirou 3,1 milhões, desceu para 1,25 milhão.
Lula joga o déficit na conta dos juros
Na cerimônia do Palácio do Planalto, Lula recusou a ideia de que a Previdência seja a culpada pelo rombo nas contas públicas, e apontou os juros como principal responsável pelo desequilíbrio.
O presidente aproveitou para elogiar Ana Cristina Silveira, que assumiu em abril no lugar de Gilberto Waller Jr. O antecessor havia chegado ao órgão em plena crise dos descontos associativos, e sua relação com a cúpula do ministério azedou desde então.