O pacote de medidas econômicas que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou ao longo de 2026 já movimenta até R$ 215,6 bilhões. O número é de um levantamento da Folha de S.Paulo, e a cifra chegou a esse ponto depois de duas decisões recentes: a criação do Desenrola Brasil 3.0 e a proibição das casas de aposta online. São 22 iniciativas de naturezas diferentes, que incluem despesa pública, renúncia de arrecadação e linha de crédito — nem todas, portanto, pesam da mesma forma sobre o caixa do governo. O governo recusa o rótulo de ações eleitorais e sustenta que tudo cabe nas regras fiscais.
O volume cresceu em etapas ao longo do ano. Em maio, o levantamento somava 11 medidas e R$ 143,7 bilhões. Antes de começarem as restrições do calendário eleitoral, em julho, já eram 16 iniciativas e mais de R$ 180 bilhões. No início de setembro o total batia em R$ 193,8 bilhões, e com as decisões mais recentes a conta passou da marca de R$ 200 bilhões.

Nem todo esse dinheiro, porém, é gasto direto do Orçamento. A conta inclui, por exemplo, empréstimos que as instituições financeiras concedem com apoio de fundos públicos, além das receitas de que o próprio governo desiste ao conceder isenção. Entre as linhas anunciadas estão R$ 21,2 bilhões para financiar caminhão e ônibus, R$ 10 bilhões para máquina agrícola, cerca de R$ 4 bilhões para motocicleta de entregador e R$ 30 bilhões para renovar o veículo de taxista e de motorista de aplicativo.
Uma das entradas mais recentes é o Desenrola 3.0, que nasceu da Medida Provisória 1.393/2026. Por ele, a União pode gastar até R$ 15 bilhões comprando carteiras de dívida antiga com desconto mínimo de 90%, para depois oferecer condições de renegociação ao consumidor. Essa etapa pode alcançar até 15 milhões de pessoas, e entram nela as carteiras formadas por dívidas de até R$ 10 mil cada uma. O desenho prevê negociar os créditos em grandes lotes, arrancar desconto das instituições credoras e repassar as condições obtidas a quem deve. O chamamento das instituições está previsto para novembro, e as renegociações com os consumidores começam em fevereiro de 2027.
O que o fim das bets tira
A proibição das apostas online entrou na conta pelo lado oposto: ela interrompe o dinheiro que se esperava arrecadar com os impostos do setor e com a taxa que as empresas pagavam pela fiscalização. A perda projetada chega a R$ 6,8 bilhões, levando em conta as estimativas que já estavam incorporadas ao Orçamento. Em 2025, a arrecadação ligada às empresas de aposta ficou perto de R$ 10 bilhões; no primeiro semestre deste ano, somou cerca de R$ 7,3 bilhões. A decisão saiu a poucos dias da eleição e encerrou o modelo de aposta de quota fixa que o próprio governo havia regulamentado tempo antes — as empresas que tinham autorização haviam pagado uma outorga de R$ 30 milhões cada uma para operar no país. Representantes do setor e parlamentares levaram a medida para a disputa política e também para a judicial.
O reajuste do Bolsa Família também está no levantamento, com impacto estimado em R$ 22 bilhões quando se somam os anos de 2026 e 2027. No começo do ano, o governo ainda havia destinado até R$ 15 bilhões ao Fundo de Garantia de Operações, o FGO, para dar sustentação à segunda etapa do Desenrola.
Finalidade eleitoral é algo que o Executivo nega para toda essa sequência de anúncios. Integrantes da equipe econômica dizem que o pacote responde ao endividamento das famílias e a outros problemas que a economia apresenta, e que tudo o que tem efeito fiscal está acomodado dentro do Orçamento. Entre os economistas ouvidos pela Folha, há divergência sobre o que esse conjunto faz com atividade, inflação, juros e contas públicas.
Junto com o Desenrola 3.0 veio outra decisão: o governo esticou por 30 dias o prazo do Desenrola Adimplentes, cuja janela de renegociação passou para 26 de outubro. Essa modalidade atende principalmente o trabalhador informal e o autônomo com dívida de até R$ 15 mil, e permite refinanciar o débito com juro de até 1,99% ao mês. Para entrar, a operação precisa ser de crédito pessoal não consignado, ter pelo menos quatro parcelas pagas e estar em dia ou com atraso de no máximo 90 dias. O governo diz que esticou o prazo para ampliar a adesão, depois das dificuldades do início da operação — em agosto, as regras já haviam mudado para deixar os bancos participantes usarem recursos próprios.
O avanço dos programas de renegociação acontece num cenário de endividamento alto das famílias brasileiras. E a discussão sobre o efeito das medidas vai continuar enquanto o Orçamento de 2027 e as medidas provisórias tramitarem no Congresso, que pode manter, mudar ou rejeitar parte do que o Executivo apresentou.