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Descoberta
“Fogo amigo’ do organismo pode agravar a Covid-19 em alguns pacientes; entenda
Descoberta é destaque em evento virtual da Academia Nacional de Medicina nesta quinta-feira (9), que será aberto ao público e vai reunir especialistas do país para avaliar os seis meses de pandemia no Brasil.
O Globo
09/07/2020 | 09:28

Na batalha contra o coronavírus, o sistema de defesa humano pode acabar emaranhado em suas próprias armadilhas e lesionar órgãos com o “fogo amigo”. O resultado são trombos generalizados que levam ao agravamento da Covid-19.

As metáforas bélicas, clichês da pandemia, neste caso se adequam literalmente a um tipo de estrutura produzido por células do sangue apontada por uma série de estudos recentes como causa do agravamento da Covid-19. Os mesmos estudos abrem caminho para novos tratamentos e formas de detectar precocemente pacientes com risco de piorar.

Chamadas armadilhas extracelulares de neutrófilos (mais conhecidas pela sigla em inglês, NETs), essas estruturas se destacam em meio à enxurrada de estudos científicos sobre o coronavírus e a Covid-19 e nelas pode estar uma forma de combater a doença, afirma o hematologista e oncologista Daniel Tabak, organizador do evento virtual da Academia Nacional de Medicina (ANM) que nesta quinta-feira reunirá alguns dos maiores especialistas do país para avaliar os seis meses de pandemia no Brasil. O simpósio será aberto ao público.

Tabak salienta que estudos recentes, inclusive de brasileiros, têm identificado o papel das NETs na Covid-19 grave. Esses estudos sugerem que ao combater as NETs é possível tratar a Covid-19. Já existem drogas que combatem a proliferação de NETs e são usadas para outras doenças.

“Estamos vendo que a Covid-19 é uma doença hematológica, do sangue. Os microtrombos generalizados são fruto de reações imunológicas e inflamatórias, e as NETs têm papel fundamental nisso”, afirma o médico e pesquisador.

Medicamentos podem para limpar ‘sujeira’ que vírus faz no organismo

As NETs são teias de proteínas e DNA, destinadas a capturar e eliminar patógenos, sejam eles bactérias, fungos ou vírus. Elas são produzidas pelos neutrófilos, as mais abundantes células do sistema imunológico. Nosso organismo produz cerca de 100 bilhões de neutrófilos por dia. São células de vida curta, não duram mais do que sete horas.

Eles são a linha de frente do combate a infecções. Quando o corpo é infectado, são os neutrófilos que, como soldados rasos, vão primeiro a campo, no melhor estilo matar ou morrer. Eles engolem (fagocitam) as células infectadas e atacam quimicamente o invasor. As NETs, que se parecem com miscroscópicas redes de pescadores, fazem parte de seu arsenal.

O coronavírus, porém, consegue desorganizar a estratégia do sistema imunológico. E faz isso de duas formas, que se relacionam. Primeiro, o alvo principal do vírus são as células endoteliais que revestem vasos sanguíneos de órgãos, como os pulmões. As células infectadas liberam substância chamada fator de Von Willebrand (FVW), associada à formação de trombos.

Depois, quando os neutrófilos são convocados, eles cumprem seu destino e se suicidam para destruir o vírus. Eles se rompem, liberando uma série de materiais que formam as NETs. Essas armadilhas podem pegar o vírus, mas ao custo de uma enorme confusão.

“As NETs se grudam nas plaquetas sanguíneas (células de coagulação) e se ligam umas nas outras. Formam trombos, e esse processo gera mais inflamação e se retroalimenta e amplifica, o resultado é que os danos da Covid-19 vão se alastrando pelo corpo e, em alguns casos, matam”, explica Tabak.

A boa notícia, diz ele, é que existem medicamentos capazes de dissolver as redes e limpar a sujeira. São substâncias que atacam apenas o DNA livre no organismo, como é o caso daquele liberado pelos neutrófilos. Eles já são investigados no tratamento de alguns tipos de câncer e de doenças autoimunes.

“Há fortes evidências de que eliminar as NETs  poderia ser uma forma segura de tratar a Covid-19”, diz Tabak.

Novas pistas para tratar doença estão no sangue

De acordo com ele, no sangue também estão pistas para identificar que pessoas correm risco de desenvolver as formas mais severas de Covid-19. Uma delas pode ser o fator sanguíneo. Há indícios significativos de que pessoas do grupo sanguíneo A correriam risco maior. Esse grupo, presente em 35% da população brasileira, está relacionado a um maior acometimento por trombose.

Esses temas estarão entre os assuntos abordados nesta quinta-feira no simpósio “Covid-19 — Que doença é essa?”, da ANM, transmitido pelo zoom e aberto a médicos, estudantes e à sociedade de forma geral. Os temas vão de vacinas, novas drogas, testes de diagnóstico, reabilitação a projeções sobre a pandemia no Brasil.

“Vamos chamar atenção para o quadro epidemiológico no Brasil e os modelos matemáticos para reconhecer a evolução da pandemia”, diz Tabak, que destaca a participação do hematologista americano Robert Peter Gale, que discutirá o verdadeiro impacto das milhares de publicações científicas no combate da Covid-19.

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