O aumento de clubes de leitura e a facilidade de comprar obras através de plataformas digitais mudaram a forma como a população consome livros no Brasil. Só em 2025, 18% das pessoas acima de 18 anos compraram ao menos um livro, impresso ou digital, o que representa um aumento de 2% em relação a 2024, totalizando 3 milhões de novos consumidores. Os dados são da pesquisa divulgada no último dia 26 pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), em parceria com a Nielsen BookData.
Para Cleudivan Jânio, editor da CJA, que atua no mercado do Rio Grande do Norte, houve um ‘boom’ de novos leitores durante a pandemia de Covid-19, devido à necessidade das pessoas de procurar uma distração. Ele também observa que as novas gerações estão aderindo ao hábito de ler. Esse crescimento da leitura entre jovens foi constatado no levantamento. De acordo com a pesquisa, na faixa etária de 18 a 34 anos houve um aumento de 3,4% em comparação entre 2024 e 2025.

Carlos Fialho, escritor e editor da Jovens Escribas, também do RN, reforça ainda a importância desse público ingressar no universo dos livros. Ele conta que, durante os 20 anos de atuação, a editora sempre procurou se fazer presente em escolas para incentivar a literatura.
“O que percebemos é que, nesses ambientes, sempre há alguns leitores e também futuros escritores e escritoras”, disse Carlos.
As redes sociais cumprem um papel importante na divulgação de obras entre o público mais jovem. Hoje em dia, é possível ter acesso a resenhas de livros através de vídeos no Instagram ou TikTok. A pesquisa mostrou que 56% dos consumidores de livros costumam fazer compras através das redes sociais. Essa tendência, porém, segundo Cleudivan, pode ter pontos negativos.
“A questão negativa é que muitos leitores desavisados deixam de garimpar boas obras para ler e se deixam levar apenas pelo que está sendo promovido por influencers, que, na maioria dos casos, são remunerados para evidenciar tais obra”.
Carlos Fialho reconhece que as redes sociais são um instrumento poderoso de divulgação da cultura, artes e de editoras menores. Por outro lado, ele enxerga que o excesso de telas pode ser prejudicial.

“É uma faca de dois gumes porque também promove o vício em telas que certamente impede o surgimento de novos leitores e até faz com que leitores consolidados passem menos tempo lendo e mais tempo no celular”.
Apesar das obras em formato digital serem cada vez mais consumidas, o levantamento mostrou que 80% dos consumidores adquiriram um livro impresso em sua última compra, enquanto 20% compraram a versão digital. Ainda de acordo com a pesquisa, 70% dos consumidores de livros afirmam gostar de acompanhar lançamentos, principalmente por meio de sites de compras (34%), indicação de pessoas próximas (30%), livrarias (24%) e criadores de conteúdo (22%).
“Embora defenda que nada substitui o livro físico, que, além de tudo, é mais do que um objeto, passa a ser uma experiência sensorial de tato, olfato etc., não podemos negar que hoje em dia é possível você otimizar o seu tempo até mesmo nos engarrafamentos ou nos transportes públicos, com leitura, utilizando-se de um dispositivo de leitura digital ou até mesmo seu smartphone”, conclui Cleudivan.
De acordo com Carlos Fialho, a competição entre o livro físico e digital é relativa; o que importa é que as pessoas tenham acesso à leitura, independentemente do formato.
“Vejo como saudável. O que compete de verdade e de forma predatória é a epidemia de vídeos curtos que está prejudicando a capacidade de reflexão de boa parte da população mundial”.
Cleudivan destaca algumas estratégias para atrair novos leitores. Uma delas é publicar sempre novas obras, além de firmar parcerias com clubes de leitura e apresentar obras em escolas. Ele relata, porém, a dificuldade de fazer com que esses novos leitores consumam obras regionais.
“As grandes editoras dominam devido ao seu significativo potencial de investimento em marketing. Basta dar uma simples pesquisada nas listas de leitura dos clubes […] geralmente os clubes selecionam 12 livros para ler em um ano. Da lista que eles publicizam em seus perfis, muitas vezes não há um livro editado por editoras potiguares”, contou.
O estudo Panorama do Consumo de Livros foi baseado em 16 mil entrevistas realizadas em outubro de 2025, abrangendo tanto pessoas que adquiriram livros quanto aquelas que não fizeram compras no último ano. Para 35% dos não compradores, os livros são caros.
De acordo com Cleudivan, o preço do livro não é um problema em questão, e sim, a não valorização da literatura.
“Se fizermos um paralelo com outros países, em especial na Europa, o preço médio do livro no Brasil ainda é baixo. Diversas pesquisas científicas ao redor do mundo comprovam que a leitura diária é uma grande auxiliar na cura de diversas enfermidades físicas e psíquicas. Então, investir em livros é investir em saúde”.

Já Carlos Fialho relembrou um episódio que aconteceu quando visitava uma escola pública para incentivar a leitura entre os jovens.
“Uma vez, uma estudante de uma escola pública me perguntou quanto custava um livro meu. Quando eu respondi o valor, ela retrucou: ‘ah, é menos do que um lanche no shopping.’ Eu nunca esqueci esse episódio, pois utilizo como argumento de venda até hoje. A leitura de um livro meu dura mais que um lanche de shopping. Só não sei se satisfaz tanto quanto. Risos”.
Público feminino
As mulheres representaram 61% do total de consumidores de livros de 2025, de acordo com a pesquisa divulgada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), em parceria com a Nielsen BookData. Em Natal, grupos de mulheres se reúnem para apreciar e discutir uma obra a cada mês.
Cleudivan Jânio aponta essa mudança no perfil dos novos leitores. Ele destaca que é notável que o público feminino está se organizando melhor para consumir literatura, muitas vezes lendo obras escritas por mulheres.
“É evidente que as novas leitoras contemporâneas, no Brasil e, portanto, no Rio Grande do Norte, são principalmente jovens mulheres, que promovem o consumo de livros a partir das influências das redes sociais”.
A jornalista Paulina Oliveira participa de 3 clubes do livro atualmente e conta que sempre possuiu o hábito da leitura. Ela recorda que o primeiro presente que pediu na vida foi um livro.
“As histórias, até hoje, me transportam para outros mundos, realidades, vivências. É um tempo de lazer, mas também de aprendizado, porque em cada narrativa dá para aprender algo e levar para a vida”.
Já a designer de moda Débora Niedja, que participa do clube Entre Linhas, o mesmo que Paulina, há 6 meses, disse que integrar o coletivo mudou a sua relação com a leitura.
“Agora, além de ler novos gêneros, que antes talvez eu não considerasse ler por gosto pessoal, eu também leio desenvolvendo anotações mentais de tópicos que serão interessantes para se discutir com o grupo no encontro presencial”.
Para Paulina, a ideia de começar a se reunir para discutir literatura veio após se reunir com duas primas e perceber que sentia vontade de compartilhar impressões sobre o que estava lendo.
“Quando compartilhamos com outras pessoas, vemos uma mesma história por outra perspectiva, compartilhando impressões e acolhendo umas às outras. É uma troca muito rica, mas também uma experiência de autodescoberta”.
Ela conta ainda que a maioria dos livros que o clube consome são digitais, pela facilidade de transportar e ler em qualquer lugar. Entre a faixa etária do grupo estão mulheres entre os 26 e 30 anos.
Lendo o Nordeste
O jornalista e escritor potiguar Octávio Santiago, autor do livro “Só sei que foi assim”, falou sobre a importância do incentivo da leitura. Vindo de uma família de engenheiros, ele relata que, graças ao incentivo de uma tia, aderiu à prática da leitura.
“A minha família era dos números, mas eu encontrei ali um caminho que eu achei mais interessante, mais seguro, não sei, com as letras”, disse.
Ele destaca a importância da escola para estimular a leitura e para reconhecer o potencial dos alunos.
“Eu recebi esse feedback de professores que diziam: ‘Olha, observe essa sua escrita, talvez esse seja mesmo o seu caminho, até profissionalmente’. Eu recebi esse retorno e acho que isso foi muito importante, porque comecei a visualizar, já com 13, 14 anos, a possibilidade de trabalhar, de ter na escrita um ofício.”
A virada de chave para a leitura aconteceu quando Octávio começou a ter contato com Luis Fernando Verissimo. A linguagem simples facilitou a conexão com o texto e criou o interesse pela crônica.
“Porque não só eu gostava de ler aquilo, mas, em alguma medida, aquilo me dizia que eu também poderia escrever, sabe? Ser um cronista.”
O autor avalia que as novas tecnologias, principalmente a internet, podem ser uma ameaça para a leitura. Segundo ele, o fato de muita gente relacionar o hábito de ler apenas à busca de conhecimento e não como lazer e entretenimento acaba distanciando o público.
“O inimigo, na verdade, vai mudando de face de acordo com as novidades midiáticas: rádio, cinema, TV, internet. Mas eu acho que o maior inimigo da literatura sempre foi, e continua sendo, a ideia de que ela não é entretenimento, que é apenas estudo”, disse.
Perguntado se, para ser um bom escritor, precisa ser um grande leitor, Octávio acredita que é necessário ter um grande repertório, não só na leitura, mas de diversas formas culturais. Além disso, para ele, a própria vivência ajuda na construção desse repertório.
“Pode ser que a gente tenha um grande escritor ou que seja um grande escutador de música, um grande entusiasta do cinema, um grande consumidor de filmes, e isso também eu entendo que funciona”.
Em 2025, Octávio lançou o livro “Só sei que foi assim: A trama do preconceito contra o povo do Nordeste” pela Autêntica Editora. A obra, que foi resultado do trabalho de pesquisa do jornalista para o seu doutorado na área de comunicação na Universidade do Minho, em Portugal, surgiu de um incômodo do autor acerca de algumas ideias difundidas sobre o povo nordestino.
“A ideia de ‘Só Sei Que Foi Assim’ surgiu de um incômodo, um incômodo duplo que eu sentia: não compreender a razão de algumas frases e ideias estarem estabelecidas na cabeça do brasileiro. Tipo: ‘o nordestino é preguiçoso’, ‘o nordestino é feio’, ‘o nordestino é incompetente’. Essas frases me incomodavam muito”, explicou.
O livro, que ganhou projeção nacional, gerou identificação de muitos nordestinos, principalmente daqueles que moram no Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e no sul do país.
“Eu acho que, em termos de entusiasmo, a gente encontra muito nos nordestinos deslocados, que sabem o que é essa experiência da discriminação, que vivem na pele e que encontram no livro uma verdadeira peixeira, né? No sentido de poder resistir, poder enfrentar”.
