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Alimentação

Brasileiros sabem comer bem, mas custo e rotina impedem prática saudável

Pesquisa indica descompasso entre intenção e comportamento alimentar e destaca impacto de renda, rotina e desigualdades sociais
Por O Correio de Hoje
28/04/2026 | 12:30

Apesar de demonstrarem conhecimento sobre o que caracteriza uma alimentação equilibrada, muitos brasileiros encontram dificuldades para transformar essa consciência em hábitos consistentes no dia a dia. É o que aponta o estudo “Comportamento alimentar: percepções e desafios da alimentação saudável”, desenvolvido pelo Pacto Contra a Fome e conduzido pelo Instituto Pensi, com apoio da FOLU (Coalizão para a Alimentação e o Uso da Terra) e cofinanciamento da Fundação José Luiz Setúbal.

A pesquisa indica que há um descompasso entre intenção e comportamento alimentar. Embora a maioria da população reconheça a importância de consumir alimentos in natura, como frutas, legumes e verduras, fatores como tempo escasso, cansaço e custo elevado dificultam a manutenção de uma rotina alimentar saudável.

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Brasileiros reconhecem importância da dieta equilibrada, mas não conseguem seguir - Foto: José Aldenir / O Correio de Hoje

“A maior parte das pessoas sabe que uma alimentação saudável é baseada em produtos in natura, frutas, legumes e verduras. O que não está acontecendo é a prática. A intenção de comer bem e o comportamento não estão necessariamente andando juntos”, afirma Maria Siqueira, cofundadora e co-diretora executiva do Pacto Contra a Fome.

O levantamento mostra que existe um esforço por parte dos entrevistados em organizar a alimentação, com planejamento de compras e preparo de refeições. No entanto, a rotina intensa acaba comprometendo essa intenção.

Relatos coletados nos grupos focais ilustram essa realidade. Uma participante de São Paulo, de 37 anos, da classe AB, relata que enfrenta dificuldades para cozinhar devido à falta de tempo, conseguindo preparar refeições apenas no período da noite, quando a rotina permite.

A alimentação saudável, embora valorizada, é frequentemente associada a disciplina, obrigação e sacrifício — fatores que reduzem seu apelo no cotidiano. Em contraste, alimentos ultraprocessados, fast food e serviços de delivery são percebidos como opções mais práticas, acessíveis e associadas ao prazer.

“Hoje não se entende alimentação saudável como prazerosa. Já o fast food e o delivery aparecem como indulgência”, diz Siqueira. Esse comportamento aparece em diferentes perfis sociais. Uma mulher de 39 anos, da classe C, mãe de uma criança, afirma que opta por preparações rápidas no dia a dia. Já uma participante de 26 anos, da classe AB, relata que, após dias exaustivos, recorrer a aplicativos de entrega se torna a alternativa mais viável: “Por mais que não seja saudável, é o que dá”.

De acordo com Claudia König, pesquisadora do Instituto Pensi, o desafio vai além do preparo da comida. A gestão da alimentação envolve decisões constantes e uma carga mental significativa. “Existe uma carga mental invisível relacionada ao planejamento alimentar. Não é apenas cozinhar, mas decidir o que será preparado, considerar preferências da família e conciliar tudo isso com uma rotina já sobrecarregada”, explica.

Essa percepção aparece de forma recorrente entre os participantes, independentemente da classe social.

O preço dos alimentos surge como um dos principais fatores que impactam as escolhas alimentares. A ideia de que “comer saudável é caro” foi mencionada em praticamente todos os grupos analisados.

Quando o orçamento é reduzido, as estratégias variam conforme a renda. Entre os entrevistados das classes AB, o ajuste costuma ocorrer em itens considerados supérfluos, como doces, petiscos, peixes, azeites premium e produtos específicos como iogurtes proteicos, sem comprometer a base da dieta.

Já nas classes C e DE, o impacto é mais direto na qualidade e diversidade alimentar. Carnes, frutas e hortaliças são frequentemente retiradas das compras. Uma participante de 30 anos, mãe, da classe C, afirma: “[Sobre suco], deixo a fruta e compro o de saquinho. É bem mais em conta”.

Outro relato, de uma jovem de 24 anos, da classe C, em Belém, aponta redução na variedade de alimentos disponíveis: “a variedade de frutas diminui, não dá para comprar vários tipos”. Já uma mulher de 29 anos, da classe DE, também de Belém, resume a adaptação alimentar diante da restrição financeira: “Quando o dinheiro está pouco, normalmente sai a salada, que é o pepino”.

Os dados do estudo dialogam com o cenário nacional. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), o Brasil ainda registrava 54,7 milhões de pessoas vivendo com algum nível de insegurança alimentar em 2024, o equivalente a cerca de 25% da população.

Esse quadro varia em intensidade. Na forma leve, há preocupação com o acesso futuro aos alimentos e queda na qualidade da dieta. No nível moderado, ocorre redução na quantidade consumida, principalmente entre adultos. Já na forma grave, há falta efetiva de alimentos nos domicílios.

O estudo também evidencia desigualdades de gênero na organização da alimentação doméstica. As mulheres são, majoritariamente, responsáveis pelo planejamento, compra e preparo das refeições, mesmo quando exercem atividades profissionais fora de casa.

Os homens, por sua vez, tendem a participar mais em momentos pontuais, como preparo ocasional ou situações de lazer. Além da sobrecarga, as mulheres também relatam maior sentimento de culpa em relação à alimentação da família. Para as pesquisadoras, enfrentar esses desafios exige mais do que disseminar informação sobre nutrição. São necessárias políticas públicas e estratégias estruturais que facilitem o acesso a alimentos saudáveis.

Segundo Claudia König, a mudança envolve múltiplos atores, incluindo organizações sociais, iniciativas privadas e influenciadores digitais, capazes de impactar comportamentos.

Maria Siqueira defende a necessidade de intervenção no ambiente alimentar, com medidas que incentivem o consumo de alimentos in natura. “É preciso regular o ambiente alimentar, com subsídios a alimentos in natura e fomento a políticas que ampliem a viabilidade e o acesso mais barato a esses alimentos”, afirma.

Outro ponto destacado é o papel do marketing. “Hoje, a propaganda favorece alimentos prejudiciais à saúde. É preciso usar esses mesmos mecanismos para promover escolhas mais saudáveis”, diz Siqueira.

A educação alimentar, especialmente no ambiente escolar, aparece como um eixo estratégico para mudanças de longo prazo. Experiências internacionais são citadas como referência. “Em países como a Alemanha, há aulas semanais de culinária até o ensino médio. O que a criança está aprendendo na escola vai impactar a família dela, porque ela vai levar aquilo para casa”, diz König.

A pesquisa foi realizada em duas etapas: análise de 210 estudos científicos e entrevistas com 142 pessoas, entre setembro e novembro de 2025, em cinco capitais brasileiras — São Paulo, Fortaleza, Goiânia, Porto Alegre e Belém. A amostra teve predominância feminina (70%) e foi dividida entre jovens de 18 a 25 anos e adultos de 30 a 40 anos. Entre as limitações apontadas estão a coleta remota de dados, o recorte geográfico restrito às capitais e possíveis vieses de seleção e gênero.