As podas de árvores em diferentes regiões de Natal tem levantado discussões sobre os impactos dessas intervenções no conforto térmico. A Secretaria Municipal de Serviços Urbanos (Semsur) afirma que realiza cerca de mil ações de manejo arbóreo por mês na cidade, incluindo podas, erradicações e manutenção de áreas verdes. Nos dois primeiros meses do ano, portanto, já foram quase duas mil ações, com foco nas principais avenidas e ruas que concentraram os polos carnavalescos. Esse número de procedimentos por mês é o padrão adotado pela pasta.
De acordo com a Semsur, o manejo ocorre mediante parecer técnico e segue critérios definidos pelo setor de paisagismo, responsável pela programação e execução do serviço. A secretaria também informa que as equipes de poda são formadas por engenheiros agrônomos e arboricultores e que a população pode solicitar poda ou retirada de árvores por telefone (84 3232-9845), e-mail ([email protected]) ou presencialmente no Departamento de Paisagismo (Rua Princesa Isabel, nº. 799 – Cidade Alta).

A pasta explica que a poda é realizada quando a árvore obstrui semáforos, interfere na iluminação pública, dificulta a passagem de veículos altos, oferece riscos à população ou interfere na fachada de imóveis. Já a supressão só é autorizada em situações específicas, como risco de queda, problemas fitossanitários, danos ao patrimônio, obstáculos ao acesso de veículos ou presença de espécies invasoras com propagação prejudicial comprovada.
Para o ambientalista Francisco Iglesias, porém, a forma como as podas são realizadas pode contribuir para a sensação de aumento do calor na cidade. “O que a gente vê é podas mal feitas, podas que destroem as árvores, as copas das árvores. Quando você diminui a copa, você aumenta a presença do sol. Em consequência, aumenta o calor”.
Segundo Iglesias, a combinação entre redução de copas, pouca arborização e mudanças climáticas agrava o problema. “Natal tem pouca arborização. O calor, por causa da mudança climática global, está aumentando. Então, na hora que você faz uma poda, uma poda que não leva em consideração a espécie, o tipo de árvore, o tamanho da copa, é uma poda só para proteger a fiação, não é feita para proteger a árvore, você está com certeza aumentando o calor, diminuindo o período de vida daquela espécie, que podia ser 50, 60 anos”, frisou.

Ele explica que as árvores também podem ajudar na drenagem urbana. “Tem uma coisa que as árvores contribuem bastante e que a prefeitura não usa, que é a questão delas servirem como elementos para evitar inundação. A árvore consome em torno de 40% da água que cai sobre elas. Por exemplo, temos lagoas de captação que estão enchendo, mas elas não possuem nenhum tipo de arborização. A prefeitura poderia usar a arborização no entorno daquela lagoa para diminuir o volume de água que vai pra lagoa”.
O ambientalista citou ainda um exemplo em Lagoa Nova. “Em Potilândia, na Avenida Capitão-Mor Gouveia com a Rua da Magnesita, uma lagoa tinha 16 árvores em volta, mas a gestão municipal retirou as 16, porque era uma espécie exótica, e não plantou nenhuma de volta”.
Na avaliação dele, o problema também está na ausência de planejamento contínuo para a arborização urbana. “Natal não tem uma tradição de cuidar das suas árvores, da sua arborização. Tinha na década de 1950, que a cidade tinha 60 mil habitantes, e era super arborizada. Hoje, não”.
Iglesias diz perceber aumento recente nas podas e aponta a falta de planejamento como um dos fatores. “Não vejo planejamento. Não há uma preocupação, por exemplo, de enterrar fiação. Pelo menos nas principais vias. Por que a prefeitura não enterra fiação”.
Arquiteto, urbanista e ambientalista, Francisco Iglesias é presidente da entidade Amigos da Natureza e acompanha temas relacionados à arborização urbana e meio ambiente na capital potiguar.
Natal é a 12ª capital com moradores vivendo em setores sem árvores
Natal ocupa a 12ª posição entre as capitais brasileiras com maior percentual de moradores vivendo em setores censitários sem árvores. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), referentes ao Censo Demográfico 2022, 44,73% da população da capital potiguar residia em áreas classificadas como “sem árvores”.

O levantamento integra a Pesquisa Urbanística do Entorno dos Domicílios, realizada junto ao Censo 2022. A coleta considerou moradores em domicílios particulares permanentes ocupados, em setores censitários selecionados, e avaliou características do entorno, como arborização.
No ranking das capitais com maior percentual de moradores em setores sem árvores, São Luís (MA) e Salvador (BA) aparecem nas primeiras posições, ambas com 65,68%, seguidas por Rio Branco (AC), com 60,04%, e Florianópolis (SC), com 55,88%. Na sequência estão Belém (PA), com 55,26%; Aracaju (SE), 55,09%; Manaus (AM), 55,07%; Maceió (AL), 53,77%; Recife (PE), 48,77%; Boa Vista (RR), 47,31%; e João Pessoa (PB), 46,74%. Natal surge em 12º lugar, com 44,73%.
Além da ausência de árvores, o estudo também mensurou os setores com maior presença de arborização em Natal: 23,86% dos moradores viviam em áreas com cinco ou mais árvores; outros 21,75% estavam em setores com de uma a duas árvores; e 9,60% em locais com três a quatro árvores.
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