Poucos artistas conseguem atravessar décadas de carreira com a mesma intensidade criativa e compromisso com a cena cultural quanto Simona Talma. Aos 25 anos de trajetória, a cantora e compositora potiguar celebra esse marco com um show no palco do Teatro Alberto Maranhão (TAM) na próxima sexta-feira 26, transformando sua história em registro ao vivo pela primeira vez.
“É como celebrar em casa, é confortável, tranquilo, e ao mesmo tempo reforça a importância e a grandiosidade desse teatro. Precisamos ocupá-lo cada vez mais, nós artistas que vivemos, criamos, produzimos aqui, para o nosso povo”, afirmou Simona, em entrevista ao AGORA RN.

A carreira de Simona Talma já a levou a palcos nacionais, como quando participou de um famoso programa de TV. Também já teve participações exitosas em projetos como Talma&Gadelha, que marcou a época do Circuito Cultural Ribeira. No espetáculo, porém, Simona revisita suas fases em álbuns solo, escolhendo músicas a partir do diálogo com o público e das canções mais pedidas ao longo dos anos.
O concerto, que terá acesso gratuito com retirada de ingressos pelo Outgo, também ecoa escolhas que moldaram sua visão de mundo, em especial o enfrentamento ao câncer de mama. “Eu usei de todo meu fundamento musical, compus, cantei, gravei, ouvi músicas que me ajudaram no momento certo. Acredito que a música é de todos e para todos, essa ferramenta poderosa que desperta e transmuta sentimentos”.
Confira a entrevista completa com Simona Talma:
AGORA RN – Você completa 25 anos de carreira com um show no Teatro Alberto Maranhão, um palco histórico para a cultura potiguar. O que representa para você celebrar essa trajetória justamente nesse espaço?
Simona Talma – É como celebrar em casa, é confortável, tranquilo, e ao mesmo tempo reforça a importância e a grandiosidade desse teatro, precisamos ocupá-lo cada vez mais, nós artistas que vivemos, criamos, produzimos aqui, para o nosso povo, somos nós os responsáveis pela manutenção da auto estima, da sensação de pertencimento e de uma parte da saúde mental do nosso povo.
AGORA RN – Você disse recentemente que se sente “madura e completa, de bem com sua obra”. Quais escolhas foram decisivos para chegar a esse ponto?
Simona Talma – Tem uma letra de música da Orquestra Greiosa, letra minha, que diz: ‘O tempo não tento ganhar, o tempo é o rei’. Referência direta a Gilberto Gil. Sempre refleti sobre a ideia de ganhar tempo e como isso se reflete no sistema capitalista em que estamos inseridos. Desvirtuo esse sistema de todas as formas que posso. Para mim, o tempo é o senhor que nos traz os melhores entendimentos, eu repudio a forma imediatista de viver e de fazer arte. A minha vida e a minha obra são a prova disso.

AGORA RN – A sua arte passou a dialogar ainda mais com questões de saúde e cuidado depois do enfrentamento ao câncer. Como a música pode ser ferramenta de cura?
Simona Talma – Eu posso dar o meu depoimento pessoal, mas já existem pesquisas, artigos científicos e principalmente a própria Musicoterapia que são a prova cabal de que a música é uma ferramenta poderosa no tratamento de várias doenças. Jurema Werneck, ativista feminista, médica, pesquisadora e comunicóloga diz que a ‘música não é música como lemos desde a lente da indústria cultural. Música é um dos elementos da linguagem, de apropriação do mundo e da cultura, é um jeito de dar ritmo ao mundo, um jeito de traduzir o mundo concreto e mundo invisível, o sagrado’. Quanto estive em tratamento, usei de todo meu fundamento musical, eu compus, cantei, gravei, eu ouvi muito, ouvi músicas que me ajudaram no momento certo. Eu usei música até na terapia. Então, acredito que a música é de todos e para todos, essa ferramenta poderosa, de infinitas possibilidades, que desperta e transmuta sentimentos. É de suma importância que o paciente queira viver, queira se curar, isso ajuda na recuperação e a música alivia a ansiedade, o medo e ajuda a processar as emoções, no ato de ouvir e no ato de fazer.
AGORA RN – Olhando para a cena musical potiguar de hoje, como você enxerga o papel da sua geração nesse processo de abrir caminho para os novos artistas?
Simona Talma – Vou usar a frase da minha amiga Alice Carvalho: ‘Fazemos parte de um plano maior de reconstrução de uma auto-estima coletiva. O quanto a sua geração teve que fazer, dando com os burros n’água, sem perder o elã, para que a minha geração, que se encontra com sua, pudesse aprender como se faz com a faca nos dentes?’. Concordo com Alice, cada um de nós, da música e de todas as artes, temos um papel nessa reconstrução. E, mesmo que os passos sejam lentos e quase imperceptíveis como os meus, ou gigantes como os de Alice, Titina Medeiros, Juliana Linhares, estamos agindo para a mudança da nossa comunidade. Que nunca mais se fale que Natal e o RN não são terras férteis para cultura e para arte. Daqui saem talentos imensuráveis, músicos, dramaturgos, atrizes, diretores, cantoras, compositoras e tantos outros ofícios artísticos.
AGORA RN – O show resultará no seu primeiro álbum ao vivo. O que o público pode esperar dessa gravação e qual é a importância desse registro para a sua história?
Simona Talma – Na verdade, quando colocamos um produto artístico no mundo, queremos que as pessoas façam uso desse trabalho. Não tem como saber que efeito essa música causará nas pessoas, tem o nosso desejo de cura, da nossa cura e do outro, tem o desejo que essa música seja uma forma de tornar a vida do outro algo melhor. Vou citar um trecho da letra de um parceiro gaúcho, o poeta Delci Jardim, ele fez essa letra para eu musicar durante o meu tratamento de câncer de mama. Diz assim: ‘E volto pro mundo, com olhar úmido, mas tranquilo eu sei, que agora eu sou melhor que ontem’.
Serviço
Simona Talma: 25 anos de carreira
Sexta-feira, dia 26 de setembro, às 20h
No Teatro Alberto Maranhão (TAM)
Acesso gratuito: sugere-se a doação de 1kg de alimento não perecível (de preferência arroz e feijão), destinada ao projeto Mesa Brasil
Retirada de ingressos: Outgo