Natal é, certamente, uma das capitais com o maior potencial turístico do Brasil – e porquê não dizer que é uma cidade capaz de se tornar um paraíso para quem nela vive os 365 dias do ano? Um litoral exuberante, um povo acolhedor, clima agradável, história rica e conectada com o mundo, além um patrimônio histórico e cultural a ser conhecido e redescoberto. Infelizmente, o tempo e a política não tem sido gentis com todos esses atributos.
Casarões coloniais estão abandonados há anos. Fachadas de prédios históricos tombados, infelizmente, no sentido literal da palavra. Ruas, pelas quais a história de nossa cidade e estado se construiu, abandonadas à própria sorte, sob uma escuridão que lembra a idade das trevas, não apenas pela falta de iluminação, mas também pela mentalidade que ronda aqueles que decidem sobre os caminhos a seguir de nossa cidade.

Foi preciso um artista e uma fagulha de criatividade para incendiar um debate que nunca deveria ter sido deixado de lado. O fotógrafo e artista digital Ronkaly Ronkalt (@ronkalt) imaginou a “Nova Ribeira” numa série que restaurou, digitalmente e com o auxílio da inteligência artificial (IA), prédios, fachadas e o desejo de ressuscitar o corpo de um dos bairros originários da cidade que jaz no solo frio e sem alma de comandos municipais. Carne vazia que abraça o comodismo e a segurança dos meios-fios pintados de branco e da grama aparada.
“Casarões coloniais estão abandonados há anos. Fachadas de prédios históricos tombados, infelizmente, no sentido literal da palavra”
Não podemos dizer, entretanto, que esse comportamento é uma novidade. Qual foi a última intervenção urbana impulsionada pela gestão pública na capital potiguar que teve real impacto na vida das pessoas, na alma dos bairros, no dia a dia de Natal?
O escritor russo Isaac Asimov não sabia que seria justamente na nossa urbe em que a primeira das três “Leis fundamentais da Robótica” seria profanada. O primeiro mandamento, proposto por Asimov ao imaginar um mundo em que os robôs criados evoluiriam de maneira a alcançar o domínio do planeta, determina que “um robô não pode causar dano a um ser humano, nem por omissão permitir que um ser humano sofra.”
A IA utilizada por Ronkalt, entretanto, foi cruel. Pisoteou o mando do russo em seus escritos e maltratou o espírito, feriu de morte o orgulho do cidadão natalense ao mostrar, ainda que de forma virtual, aquilo que nós humanos não conseguimos realizar. Uma Ribeira viva até a Cidade Alta, com sua beleza refletida pelo espelho do Potengi e abençoada pela Pedra do Rosário. Resta esperar que em 2024, não precisemos ver a revolta das máquinas, mas a ascensão dos eleitores que querem ver a inteligência humana retomar o controle dos rumos da terra de Poti.