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Cultura

Prazo: Teatro Municipal Sandoval Wanderley será entregue em novembro

Espaço cultural de Natal passa por melhorias e deve retomar apresentações artísticas em breve
Luana Costa
30/08/2023 | 07:01

A rampa que dá acesso ao palco desde a sua inauguração em 1962, assim como as salas de ensaio, estão lotadas de memórias do público e de artistas que compareceram ao teatro Sandoval Wanderley, no bairro do Alecrim, até o seu fechamento no ano de 2009.

No final de 2022, o teatro entrou em processo de obra de requalificação, após ficar 14 anos fechado. De acordo com a Secretaria de Cultura de Natal/Fundação Cultural Capitania das Artes (Secult/Funcarte), o Sandoval Wanderley será reinaugurado em novembro e é um dos espaços cotados para as festividades natalinas no final do ano.

Teatro Sandoval Wanderley. Foto: José Aldenir/ Agora RN
Teatro Sandoval Wanderley. Foto: José Aldenir/ Agora RN

O projeto arquitetônico, feito como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), foi acatado pela prefeitura do Natal e passará por algumas mudanças. Apesar da estrutura do palco arena, da fachada e da antiga bilheteria do teatro serem mantidas, o espaço das apresentações terá um longo teto de vidro que contribuirá para luz natural e algumas apresentações em horários com a presença da luz do sol.

De acordo com a engenheira responsável, Vaneska Souza, a abertura do teto foi um dos motivos para a obra ter atrasado. “Existia o interesse de abrir o teto. Mas quando foi decidido, a obra já estava com aproximadamente seis meses de andamento, por isso atrasou um pouco. A cobertura é o que leva a terminar os demais ambientes”, afirma.

Além disso, a parte inferior do teatro será reformada para ter salas multifuncionais para pequenas apresentações e ensaios, salas administrativas e a construção de um café, que terá a intenção de ser aberto não apenas quando tiverem espetáculos, mas como espaço de convivência no horário comercial.

Frequentado pelo público popular de Natal, o local era palco de shows e peças nacionais e regionais.

“O teatro tinha um acesso muito fácil, nós íamos em grupos de estudantes. O transporte era na porta e o valor dos ingressos era mais acessível aos nossos bolsos”, conta Denise Martins, de 60 anos, que frequentava o Sandoval Wanderley na adolescência enquanto ainda era estudante.

A enfermeira apaixonada pela cultura local relata que viveu muitos momentos especiais e assistiu inúmeros shows e peças teatrais no espaço. “Um momento que me traz grande lembrança foi assistir o monólogo Apareceu a Margarida. Uma obra de sucesso de Roberto Athayde e, aqui interpretada pelo nosso grande ator, João Vale, de quem me tornei fã até hoje”.

Da atuação para a iluminação

Dentre os inúmeros artistas que se apresentaram no Sandoval Wanderley, está Castelo Casado. Foi no teatro que Castelo apresentou as primeiras peças e em seguida deu os primeiros passos para a iluminação. Hoje, já aposentado, o artista relembra os momentos em que esteve no teatro e diz ter memórias mais positivas do que negativas.

Ao ser perguntado em que época ele iniciou no teatro do Alecrim, o ator ri e diz não saber o ano exato, mas afirma que peças teatrais entraram em sua vida no início da adolescência. “As primeiras peças que eu fiz de espetáculos para adultos foram lá. Foi no mesmo ano que Galvão [Filho] iniciou. Começamos, inclusive, no espetáculo para adultos”. E continua: “ A maioria dos grupos de teatro que tinham aqui se apresentavam muito lá, porque não tinha tanta pauta no Alberto Maranhão. Então o teatro era muito movimentado”.

Segundo Castelo, o Sandoval Wanderley foi espaço para criação de cursos, ensaios e apresentações de vários grupos teatrais. Na época, o ator conta que fez parte de um curso de iniciação teatral da Secretaria Municipal de Educação e Cultura e teve como professor o diretor Jesiel Figueiredo.

“As aulas aconteciam lá no Sandoval Wanderley, assim como as apresentações. Então, o teatro teve uma importância muito grande na formação de muitos atores da cidade, de muitos diretores daqui. Porque todos que passaram nesse curso de formação aprendiam lá”, diz.

Em relação ao público, o artista relembra que o teatro era bem frequentado, principalmente quando se tratava do grupo de teatro do SESC que faziam apresentações de forma gratuita. “O SESC destinava essas apresentações para os comerciantes. Como no Alecrim existe um comércio muito grande, o número de plateia também é muito grande”, aponta.

Desafios e memórias positivas

Até o seu fechamento, o Teatro Sandoval Wanderley passou por pequenos reparos. No entanto, por alguns anos o local apresentou riscos para o público e artistas. “Na época em que o teto do teatro caiu, eu fazia parte do grupo de teatro de rua Alegria, Alegria e nós tínhamos ensaiado na noite anterior. Quando acordamos, vimos a notícia que o teto tinha desabado”, quem conta a situação é Galvão Filho – ator, compositor e cantor potiguar.

Ele afirma que viveu muitos momentos bons no Sandoval Wanderley, mas também presenciou muitas dificuldades. Uma delas estava na ausência de estacionamento nas proximidades do local e boa parte do público chegava caminhando para assistir as apresentações. Com isso, o espaço era muito menos frequentado como ele e os outros artistas gostariam.

Mas apesar dos pontos negativos, Galvão afirma que o teatro tinha peças maravilhosas. “Todo mundo que chegava lá se desdobrava para fazer bonito porque era um teatro de bolso e a gente precisava lotar. A casa tinha que lotar para o espetáculo acontecer”. Além disso, Galvão fala que um dos pontos positivos era a acústica de qualidade. “Tínhamos que fazer várias sessões da peça para que o público assistisse porque era um espaço muito pequeno. Mas ele tinha uma acústica muito boa e depois da reforma, que ele se tornou um palco arena, o som ficou melhor”, pontua.

Como músico, Galvão Filho relatou que não fez show próprio no teatro, mas contribuiu para alguns shows. “Naquela época, eu estava envolvido com o teatro, mas quando o pessoal da música fazia algum movimento e juntava vários artistas, me chamavam e eu participava”. O cantor também frequentou o teatro como espectador pois existia um grande movimento artístico.

Reinauguração

Com a reabertura, ambos atores se sentem felizes pela volta das apresentações musicais e teatrais e afirmam que existe uma importância do teatro popular para o público local. “É um teatro que não causa medo nas pessoas. Para a classe média baixa, para ir ao teatro era necessário ter uma roupa nova, pois havia muita gente importante. As pessoas sempre tiveram essa imagem na cabeça, e nós tentávamos desmistificar o tempo todo essa situação. Mas no Sandoval Wanderley isso não existia”, afirma Galvão.

Além disso, Galvão Filho diz que acredita que a inauguração veio em boa hora para a cultura de Natal e espera que os órgãos públicos invistam nos trabalhadores e no local. “Espero que a prefeitura, assim como o governo do estado, tenham projetos voltados para o teatro e que invistam nos artistas, paguem cachês decentes para as pessoas que vão se apresentar e que ofereçam condições para a produção dos espetáculos. Porque se tem um bom investimento, terão bons espetáculo”.

Para Castelo Casado, a expectativa é de voltar ao Sandoval Wanderley depois da reinauguração apenas como espectador, mas não descarta a alternativa caso o grupo de teatro voltasse a se reunir.

“Só se um dia a gente formasse e se juntasse a um grupo e a gente ir lá fazer isso. Eu não, nunca mais aconteceu, faz muito tempo que não atuo”, frisa.

O ator e empresário também aponta que a volta do teatro é uma boa oportunidade para crescer vários setores da cidade. “Um teatro fechado é uma coisa muito feia. Na hora que se vê um teatro aberto, você fica tão feliz. Porque tudo cresce, a cultura cresce, a educação do povo cresce. Então, é muito bom. Eu adoro, estou rezando para que abra, faz tempo”, finaliza.

Teatro Sandoval Wanderley fica no coração do Alecrim. Foto: José Aldenir/Agora RN
Teatro Sandoval Wanderley fica no coração do Alecrim. Foto: José Aldenir/Agora RN