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Cultura

Titina Medeiros: negacionismo não tem espaço no teatro

Atriz potiguar falou sobre espetáculo "Sinapse Darwin", refutou o negacionismo na pandemia e ainda ressaltou a importância de políticas públicas na arte
Nathallya Macedo
24/12/2021 | 09:29

A pandemia da Covid-19 trouxe dor, medo, luto e o sentimento constante de incerteza. No primeiro momento, ainda sem vacina, o negacionismo no Brasil tomou proporções alarmantes, manifestando-se na negação ou minimização da gravidade da doença e no boicote às medidas preventivas. Depois, veio a infeliz tentativa de descredibilizar os imunizantes desenvolvidos com tanto empenho pelos pesquisadores.

Disfarçado entre interesses político-ideológicos, o negacionismo prejudicou e ainda segue abalando o enfrentamento ao coronavírus. Com esse cenário em mente, a atriz potiguar Titina Medeiros resolveu agir e pensou, junto ao companheiro César Ferrario, em um espetáculo de teatro com base na ciência, conduzindo um movimento de democratização do acesso à informação e do conhecimento através da cultura, de forma honesta.

Titina Medeiros: negacionismo não tem espaço no teatro - Agora RN
Titina Medeiros durante "Sinapse Darwin". Foto: Tiago Lima

“Quando chega a pandemia e começa o negacionismo, a gente pensa ‘vamos gerir um trabalho que fale de ciência’. Decidimos falar de Charles Darwin, na teoria da evolução. É um espetáculo que a gente vê um pouco da biografia dele e que acaba incentivando as pessoas a conhecerem um pouco mais sobre o assunto”, relembrou a artista.

“Sinapse Darwin”, enfim, surgiu. Foi pensado durante a pandemia para ser realizado na praça, com as pessoas presentes, com o objetivo de atingir uma grande quantidade de espectadores justamente para disseminar a mensagem. O espetáculo remonta a história de Darwin de maneira inusitada, com linha narrativa desobediente ao tempo, requisitando a imaginação do público e trazendo elementos de teorias contidas em “A Origem das Espécies”.

“Darwin fala de esperança, de renascimento, de evolução, e acho que o espetáculo significa isso para nós, superação”, pontuou Titina ao reconhecer a importância da temática nos tempos atuais. “Que as artes, a sensibilidade, a ciência e a educação tenham o valor que merecem em nosso país”.

É nessa perspectiva que o grupo de atores levou o espetáculo para a Praça do Gringos no último fim de semana, dentro da programação gratuita do “Natal em Natal”. A peça tem um “roteiro não dito”, sem falas, mas com uma história leve e de fácil absorção. “Sinapse Darwin” é uma realização da Casa de Zoé, produtora de Titina, e tem previsão de ser apresentado em Parnamirim no mês de janeiro, e em Mossoró, em fevereiro.

Com uma carreira de mais de 20 anos, Titina ganhou a TV brasileira em 2012 com a estreia da novela Cheias de Charme. Antes, já era destaque local com a atuação em trabalhos publicitários e em grupos de teatro, como o Clowns de Shakespeare. Teatro este que sempre foi a realização de um sonho para a atriz, que vive sob o desejo de enaltecer o dom da atuação por onde passa.

Recentemente, promoveu temporada online do espetáculo “Meu Seridó” – que veio da ânsia de contar a história da região que é raiz de Titina, nascida em Currais Novos e criada em Acari. Já “Candeia”, que estreou durante a pandemia, trouxe o sagrado feminino para o centro do discurso. Teve ainda “Os Roni”, sitcom do canal Multishow que conta com a participação dos artistas Whindersson Nunes, Tirullipa e GKay.

“A gravação dos recentes episódios foi estressante. Não tinha vacina ainda, no começo de 2021, e eu peguei Covid mesmo com todos os protocolos. No meio da gravação, a gente perdeu Paulo Gustavo e isso causou muita tristeza. Ele era uma referência para todo mundo, com aquele tipo de humor. Ele chegou e abriu espaço para várias produções”, contou Titina.

À Cultue, a atriz revelou sua visão sobre o audiovisual potiguar, ressaltou a importância de políticas públicas e comentou ainda seu papel como mulher na sociedade e no mundo artístico.

Audiovisual potiguar Sou fã. A galera começou a entender a força da união para produzir, do coletivo. Que isso fique cada vez mais forte, mais potente, e que cresça. Alice Carvalho [atriz potiguar] é uma das protagonistas da série do Amazon Prime Video, com mais 14 atores potiguares. A série terá projeção internacional e demonstra nossa força produtiva. É por isso que o incentivo financeiro do Estado na arte é importante. Engenharia tem incentivo, comércio tem… por que nós, que oferecemos coisas positivas para a sociedade, não temos? A sociedade precisa de arte, a pandemia foi prova disso.

Posicionamento políticoA gente perdeu tanto. Bolsonaro fez um desmonte, até o Ministério da Cultura deixou de existir. A gente não vivia com maravilhas, mas a gente teve um ‘boom’ no governo Lula com os editais, por exemplo. O desmonte foi tão grande que agora é uma reconstrução do que tinha. Em nível estadual, estamos vivendo a reabertura dos equipamentos culturais. É importante minimamente ter um teatro, e nem isso estávamos mantendo. Mas pedimos uma política cultural mais ampla.

Lei Aldir BlancQue paradoxo! Paradoxo porque aconteceu dentro do governo Bolsonaro: ele não queria mas aconteceu. Os recursos abriram portas para ajudar quem precisava. Que coisa mais incrível! Eu acho que, quem entrar para presidente, não pode ignorar a lei. Ela tem que ser repensada, mas não pode deixar de existir.

Papel femininoEu sou artista e sou mulher, é entrelaçado. A questão do feminino é o caminho apontado para mim artisticamente. Recebi, no ano passado, um convite para dirigir um trabalho só de mulheres, o Candeia, que fala da força feminina ancestral, das nossas avós. Com isso, me conectei ao meu ‘eu’ mulher artista em um lugar de saber que eu quero seguir, mas que, para isso, tenho que me conectar a mim. É como se, ao mirar para frente, eu tivesse também que mirar para trás. E mirar para frente é também amar os homens, não da forma subserviente como a gente ama hoje, mas para aprender. Que não pareça ‘passar a mão na cabeça’, mas é quase como perdoá-los ancestralmente. Nossa condição de mulher é dolorosa porque somos educadas a ser ceifadas. Quero continuar me conhecendo mulher para aprender a acolher, a ter afeto, ainda entendendo que a luta é necessária.