A pandemia do novo coronavírus já tem envergadura de desastre. Com mais de 300 mil mortes confirmadas até esta quinta-feira, 14, a Covid-19 já matou mais pessoas do que guerras, desastres naturais e atentados terroristas que marcaram a história. Apesar da letalidade da doença, uma grande quantidade de pessoas, incluindo líderes mundiais, continuam a minimizar ou negar a pandemia – que continua a fazer vítimas diárias em todos os continentes.
Para o professor de história da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), João Malaia, o quanto um evento trágico impressiona alguém depende de fatores como a duração, a proximidade de quem morre e a distância física do fenômeno em si. “Muitas mortes em um período curto também tendem a impressionar mais. No caso de uma pandemia, as mortes diárias vão diluindo o sentimento da tragédia, a não ser para aqueles que perdem pessoas próximas”, explica o pesquisador, que coordena um projeto de pesquisa sobre a gripe espanhola no Brasil, o ‘Mais História, por favor!’.

Segundo Malaia, a normalização da morte nos discursos de autoridades como o presidente da República acaba reforçando o sentimento de conformação de parte da população. Olhando para o passado, vê semelhanças na forma como o Brasil lidou com a gripe espanhola. “O governo brasileiro foi muito criticado na época por setores da imprensa por demorar a tomar medidas, principalmente no Rio de Janeiro, então capital federal, quando já se sabia dos casos”, diz.
O número de mortes pelo mundo já ultrapassou qualquer desastre natural da história recente. O tsunami de 2004, que varreu países banhados pelo Oceano Índico e considerado o mais mortal da história, vitimou cerca de 230 mil pessoas. O cenário não é muito diferente se observados os contextos regionais e nacionais.
Mais baixas que os civis do Iraque
Na Europa, continente com mais mortos até o momento, somados os quatro países mais afetados pela pandemia – Reino Unido, Itália, França e Espanha – o número de vítimas é maior do que o total de civis mortos nos últimos dez anos da Guerra do Iraque (2009-2019).
Pior que o Vietnã
Nos Estados Unidos, o número de vítimas do novo coronavírus entre fevereiro e maio – menos de 120 dias – já é maior do que o de militares americanos mortos na Guerra do Vietña (58 mil), que durou 20 anos.
Quase 30 vezes o 11 de Setembro
Seriam necessários mais de 28 atentados iguais aos de 11 de setembro de 2001, que destruiu as torres gêmeas do World Trade Center, para igualar o número de mortos pela covid-19 nos EUA. Já o Estado de Nova York, palco da catástrofe, precisaria presenciar mais de 9 atentados para igualar o número de mortos pela pandemia.
Mais de 100 guerras
O Reino Unido, que tomou o posto da Itália de país mais afetado pela pandemia no continente, teria que lutar mais de 130 Guerras das Malvinas para ter o mesmo número de baixas provocadas pelo coronavírus. Se contarmos o número total de mortos na guerra (britânicos e argentinos), seriam necessários mais de 36 conflitos idênticos ao disputado no Atlântico sul.
Custo maior que a Independência
A Segunda Guerra de Independência da Itália, iniciada em 1859, foi o último episódio no processo de unificação do país. Estima-se que mais de 12 mil vidas foram perdidas durante o conflito, o que equivale a menos da metade das vítimas da pandemia.
1.586 anos de terrorismo
Na Espanha, as vítimas da Covid-19 somam um número 30 vezes maior do que os mortos em atentados promovidos pela Pátria Basca e Liberdade (ETA). Em 50 anos de atividade, as ações do grupo terrorista vitimaram 584 pessoas. Caso ainda existisse e mantivesse a mesma média de letalidade, o ETA só conseguiria igualar o número de mortes provocadas pela pandemia em 1.586 anos de terrorismo.
Atentados do Isis em París
Comparativamente, os mortos pela covid-19 na França correspondem a, aproximadamente, 300 ataques terroristas iguais ao que ocorreu na boate Bataclan, em 25 de novembro de 2015, quando o grupo jihadista Estado Islâmico (ISIS) fez um de seus mais famosos atentados até então.
Brasil e São Paulo
No caso brasileiro, os mais de 13 mil mortos fazem desastres como o de Brumadinho ficarem pequenos. Teriam que ter ocorrido 52 acidentes iguais ao da cidade mineira para alcançar a mortalidade. O mesmo pode ser dito do massacre do Carandiru. Seriam precisas 122 chacinas para que o número de mortos se igualasse ao do país. Já São Paulo teria que lutar quatro Revoluções Constitucionalistas para igualar as baixas.