A agenda apresentada pela Federação da Agricultura, Pecuária e Pesca do Rio Grande do Norte (Faern) aos candidatos ao governo reúne demandas que precisam ocupar espaço no planejamento estadual para os próximos quatro anos. Água, assistência técnica, crédito, infraestrutura e acesso a mercados são condições para produzir, melhorar a renda e sustentar a atividade econômica no interior. Ao organizar essas necessidades em um documento, a entidade oferece uma contribuição ao debate eleitoral e uma referência para acompanhar as decisões da próxima administração.
A publicação “Propostas para a Agropecuária Potiguar 2027–2030” foi entregue nesta semana a Allyson Bezerra (União), durante encontro na Festa do Boi, em Parnamirim. Os dois concorrentes no segundo turno foram convidados, mas apenas ele compareceu. Cadu de Lula (PT) esteve ausente. A iniciativa foi organizada com caráter institucional e apartidário, com momentos individuais previstos para os candidatos. O interesse do setor é que as recomendações orientem políticas públicas, independentemente de quem vencer a eleição.
Há uma base de consulta que merece atenção. Segundo o presidente do Sistema Faern/Senar, José Vieira, o documento resulta do Rally do Agro Potiguar 2026, com mais de 280 entrevistas em diferentes regiões. Foram ouvidos produtores, agroindústrias, associações e sindicatos. Essa diversidade permite reunir dificuldades que aparecem na propriedade, no beneficiamento e na comercialização. Também ajuda a compreender por que uma mesma medida pode produzir resultados diferentes conforme a região, a atividade e a dimensão do empreendimento.
Os números da produção ajudam a dimensionar o que está em discussão. Segundo a Pesquisa Agrícola Municipal do IBGE, divulgada em setembro, as lavouras potiguares alcançaram valor de produção de R$ 3,92 bilhões em 2025, crescimento nominal de 8,65% sobre 2024.
O mesmo levantamento mostra que o avanço em valor convive com dificuldades. A produção estadual de melão caiu 28,27% em 2025, para 362,4 mil toneladas, embora o RN tenha permanecido como maior produtor nacional da fruta. Esses resultados recomendam atenção às condições de competitividade e à continuidade dos investimentos. A relevância econômica do campo envolve ainda pecuária, aquicultura, pesca, processamento de alimentos, transporte e comércio, atividades que ampliam a circulação da renda gerada pela produção.
A abrangência da agenda da Faern acompanha essa realidade. Além dos temas comuns ao setor, o documento apresenta recomendações para 12 cadeias produtivas, contemplando produção vegetal e agroindustrial, pecuária, outras atividades de produção animal, aquicultura, pesca e economia do mar. Há necessidades compartilhadas, mas também exigências próprias de cada segmento. O planejamento público ganha consistência quando considera essas diferenças e estabelece prioridades com participação de quem conhece a rotina da produção.
No acesso à água, o apelo é especialmente compreensível. A segurança hídrica interfere na decisão de plantar, manter rebanhos e investir. Reservatórios, distribuição, irrigação e soluções adaptadas às comunidades precisam integrar uma política com continuidade. O aproveitamento das estruturas existentes e a manutenção dos sistemas merecem atenção tanto quanto novas obras. Para o produtor, a utilidade do investimento aparece quando a água chega com regularidade e permite organizar a atividade.
Assistência técnica e crédito também precisam caminhar juntos. O financiamento amplia possibilidades quando vem acompanhado de orientação sobre custos, manejo, produtividade e comercialização. Para pequenos produtores, esse acompanhamento pode facilitar o acesso a instrumentos disponíveis e reduzir dificuldades na execução dos projetos. Qualificação profissional, inovação e infraestrutura completam esse esforço, aproximando a capacidade de produzir das condições necessárias para vender melhor.
No encontro, Allyson assumiu compromissos com assistência técnica, segurança rural, ampliação do crédito e acesso à água. Citou integração de estruturas hídricas, parceria com o Governo Federal, perfuração de mil poços e instalação de dessalinizadores. São propostas relacionadas às preocupações apresentadas, cujo detalhamento deverá esclarecer recursos, execução e alcance.
A expectativa expressa por José Vieira é melhorar a renda e permitir que os produtores continuem trabalhando no RN. Esse objetivo dá sentido à agenda. Sua incorporação ao governo dependerá de orçamento, articulação institucional e acompanhamento dos resultados. A Faern se dispõe a colaborar e oferece um diagnóstico construído pela escuta. Cabe à próxima gestão aproveitar essa contribuição e transformar as prioridades do campo em serviços, investimentos e oportunidades que alcancem as comunidades produtoras.