A maioria dos brasileiros não quer política dentro da igreja. Oito em cada dez pessoas se dizem contrárias a discutir o assunto em espaços religiosos, e nove em cada dez não querem que o líder de sua igreja autorize a presença de candidatos no local. Os índices são parecidos entre católicos, evangélicos e fiéis de outras religiões. Os números saíram da pesquisa Religião e Vida Pública no Brasil, realizada pelo Iser, o Instituto de Estudos da Religião, junto com a Quaest. Foram 15 mil entrevistas presenciais em todas as regiões do país.
A recusa dos fiéis, porém, convive com a tentativa de influência dos líderes, sobretudo dos pastores, como mostra outro trecho da mesma pesquisa. Perguntados sobre como agiu, na eleição de 2022, o líder religioso da comunidade que frequentavam, 11% dos entrevistados afirmaram ter recebido orientação para votar no então presidente Jair Bolsonaro (PL), e 5% para votar em Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Entre os evangélicos os números sobem. Nos protestantes, grupo que inclui igrejas históricas como as batistas e as presbiterianas, 20% dizem ter sido orientados pelo líder religioso a votar em Bolsonaro. Entre os pentecostais, faixa que reúne denominações como as Assembleias de Deus, a Universal e a Quadrangular, esse porcentual chega a 23%.
Não existe um voto evangélico único
Para a antropóloga Lívia Reis, coordenadora do Iser e da pesquisa Religião e Vida Pública, os resultados indicam que a religião é apenas um dos marcadores sociais capazes de influenciar o voto. Mesmo com o apoio maciço dos pastores das maiores igrejas a Bolsonaro em 2022, Lula obteve 35% dos votos dos evangélicos no Nordeste, região onde o PT tem seus melhores resultados, pouco abaixo dos 38% obtidos pelo adversário nesse mesmo grupo no segundo turno daquela eleição.
O levantamento mostra diferenças também entre as igrejas. Na Universal, 27% dos fiéis dizem que o pastor recomendou o voto em Bolsonaro e 12%, em Lula, nos dois casos acima da média. E 26% dos fiéis dessa igreja concordam com a ideia de o pastor indicar em quem votar, o dobro do que aparece na média geral do levantamento.
Na leitura da pesquisadora, os números afastam a ideia de um voto evangélico homogêneo e mostram uma correlação de forças dentro das igrejas. “Não se trata de o pastor mandar e o fiel obedecer. Na pesquisa, os evangélicos aparecem mais engajados religiosamente do que outros grupos, e a igreja é uma rede de confiança. É nesse sentido que uma liderança pode acabar influenciando o voto, por exemplo, a partir das informações que circulam no grupo de WhatsApp dessa comunidade. Mas também há o inverso, pessoas que deixam a igreja reclamando da insistência do pastor de indicar voto”, afirma.
A disputa de 2026
Na campanha atual, Flávio Bolsonaro (PL) tenta reproduzir a estratégia adotada pelo pai em 2022 e procura o apoio de lideranças evangélicas, que até agora evitam declarar voto abertamente. Em pronunciamentos, o senador promete indicar ao Supremo Tribunal Federal (STF) ministros que sejam “contra o aborto e contra as drogas”, discurso próximo ao dessas lideranças. Lula, por outro lado, critica o que classifica como “uso político da religião” e diz que não vai montar “comitê de campanha” em igrejas, por “respeito à fé das pessoas”.
Diretor da Casa Galileia e um dos autores do relatório “Narrativas evangélicas e contexto eleitoral”, produzido com o Instituto Democracia em Xeque, o antropólogo Flávio Conrado avalia que as lideranças mais radicalizadas podem ter reduzido o tom no púlpito, mas continuam a usar as redes sociais e outros espaços para, nas palavras dele, “circunscrever o voto religioso à direita”.
Conrado observa ainda que pastores das principais igrejas vêm apresentando o ministro do STF André Mendonça, presbiteriano indicado à Corte por Bolsonaro, como figura de uma disputa entre o bem e o mal envolvendo o colega de tribunal Alexandre de Moraes, com efeitos na eleição. “A ideia transmitida é que Mendonça está numa batalha espiritual contra um sistema corrompido, que certas lideranças associam à ocupação do Executivo e do STF pela esquerda”, diz o antropólogo.
A política migra para as redes
A pesquisa do Iser e da Quaest mostra que apenas uma minoria dos entrevistados, um em cada cinco, participa de grupos ou comunidades religiosas nas redes sociais. Entre quem participa, porém, a política aparece com frequência: 48% veem “sempre” ou “frequentemente” outros integrantes compartilhando conteúdo político nesses grupos no Facebook, e 34% observam o mesmo no WhatsApp. Católicos praticantes, pentecostais e protestantes relatam mais contato com esse tipo de material nos grupos de que participam do que católicos não praticantes e evangélicos sem igreja.
Para os pesquisadores, isso indica que a tentativa de influência política por meio do discurso religioso já não se limita ao que é dito dentro do templo. Nos discursos do 7 de Setembro na Avenida Paulista, em São Paulo, depois transformados em cortes nas redes sociais, o pastor Silas Malafaia, líder da igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo, e a bispa Sonia Hernandes, que comanda a Renascer, pediram orações por Mendonça e trataram sua atuação no caso Master como uma oportunidade, na eleição, de “derrotar homens injustos” e impedir que as “trevas ocupem nenhum cargo” no país. O prefeito da capital paulista, Ricardo Nunes (MDB), também participou do ato e distribuiu camisetas estampadas com a frase “Força, Mendonça”.
Brenda Carranza, professora de Antropologia da Religião na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), avalia que pode estar em curso uma aproximação de práticas entre cristãos conservadores, católicos e evangélicos. “A campanha eleitoral passa cada vez mais pelos influenciadores cristãos em redes sociais. E os líderes de igrejas passam a trabalhar mais com a defesa de determinados valores, que sejam verbalizados por políticos, do que se restringir a candidatos da própria igreja”, diz a pesquisadora.