O avanço das exportações de ouro colocou a mineração em uma nova escala na economia do Rio Grande do Norte, mas a expansão do setor depende de investimentos que vão além da retirada do minério do subsolo. Pesquisa geológica, disponibilidade de água, tecnologia de beneficiamento e licenciamento ambiental são apontados por representantes do Sindiminerais-RN como condições para transformar ocorrências minerais em empreendimentos capazes de produzir, exportar e gerar receitas para os municípios.
No primeiro semestre de 2026, o Estado exportou US$ 157,5 milhões em ouro, equivalentes a 24,6% de suas vendas externas. O resultado levou o RN à sexta posição entre os maiores exportadores brasileiros do metal, segundo levantamento do Sebrae-RN.

Em entrevista ao programa Tribuna Livre, da Jovem Pan News Natal, na segunda-feira 31, o presidente do Sindiminerais-RN, Mário Tavares, e a doutora em mineração e assessora da entidade Maria Clara Negreiros Cavalcante afirmaram que o desempenho revela possibilidades conhecidas há décadas, mas que dependiam de capital e soluções técnicas para serem aproveitadas.
“O caso do ouro é um caso clássico de investimento”, disse Maria Clara. Para ela, a existência do minério não basta para assegurar uma operação economicamente viável: é necessário resolver também as limitações de infraestrutura e processamento.
Geólogo e ex-professor de mineração, Tavares explicou que operações anteriores se concentraram nas camadas superficiais das jazidas, onde a ação da água e do tempo altera as características da rocha. Esse material, denominado intemperizado, apresentava condições diferentes das encontradas em profundidade. Segundo ele, faltavam recursos e tecnologia para avançar sobre a rocha menos alterada, e a chegada de investidores com capacidade financeira e técnica permitiu superar essa etapa e ampliar a produção.
O presidente do sindicato usou um exemplo para explicar a dimensão do processamento: em uma ocorrência com teor de um grama de ouro por tonelada, é preciso trabalhar uma tonelada de rocha para recuperar aquela quantidade de metal. A comparação foi apresentada de forma ilustrativa, e não como informação sobre o teor médio de uma mina específica.
Além dos equipamentos de extração, essa relação exige estrutura para britagem, tratamento e concentração do minério. No semiárido, a disponibilidade de água acrescenta uma restrição à atividade. Maria Clara apontou o aproveitamento de esgoto tratado em Currais Novos como exemplo de investimento que enfrenta simultaneamente uma necessidade industrial e um problema urbano. “A empresa investiu em tecnologia e trata o esgoto da cidade de Currais Novos para ter água para beneficiar o ouro”, afirmou.
A solução utilizada pelo Projeto Borborema envolve a Aura Minerals, a Companhia de Águas e Esgotos do Rio Grande do Norte (Caern) e a prefeitura. O efluente urbano tratado é aproveitado como fonte de água industrial, reduzindo a pressão sobre os recursos hídricos locais. Para a assessora, o caso demonstra que parte do investimento necessário à mineração está fora da extração propriamente dita — a viabilidade de uma jazida pode depender de soluções para água, energia, transporte e infraestrutura urbana.
A utilização de água de reúso, entretanto, não equivale à comprovação de que todo o município esteja saneado.
A entrevista foi publicada na edição desta terça-feira 1º do jornal O Correio de Hoje.