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Ciência

Alzheimer por transfusão? Revisão no Lancet mantém hipótese em aberto e entidades reafirmam segurança

Artigo de UCL e UCLH não encontrou prova de transmissão; especialistas dizem que doar e receber sangue segue seguro
Agora RN
29/08/2026 | 12:23

A hipótese de que proteínas ligadas ao Alzheimer possam passar de uma pessoa a outra em transfusões de sangue ganhou sua revisão mais completa — e a conclusão, por ora, é dupla: não há evidência de transmissão, mas a pergunta merece pesquisa. O artigo “Risk of transmission of amyloid β pathology via transfused blood products”, publicado em 22 de agosto na revista The Lancet por pesquisadores da University College London (UCL) e do hospital UCLH, reuniu os estudos disponíveis sobre a beta-amiloide, proteína cujo acúmulo no cérebro é uma das marcas da doença.

O precedente que sustenta a investigação é real e documentado: em 2024, pesquisadores descreveram cinco pacientes com Alzheimer iatrogênico — adquirido em procedimento médico —, décadas depois de tratados na infância com hormônio de crescimento extraído de glândulas de cadáveres, prática abandonada nos anos 1980. E um estudo escandinavo de 2023 observou que receptores de sangue de doadores que mais tarde tiveram hemorragias cerebrais apresentaram risco maior do mesmo problema — uma associação que não prova causa, como registrou O Correio de Hoje na edição desta sexta-feira 28.

Braço de doador com agulha e bolsa de coleta de sangue, ao lado do equipamento de doação.
Doação de sangue no Hemonorte: a revisão publicada no Lancet não encontrou evidência de transmissão do Alzheimer por transfusão, e entidades reafirmam que o procedimento é seguro. Foto: Acervo Agora RN

A reação da comunidade científica foi de cautela contra o alarme. “Não está claro quão significativo qualquer risco poderia ser — e a transfusão é vital e frequentemente salva vidas”, afirmou Susan Kohlhaas, diretora-executiva de pesquisa da Alzheimer’s Research UK, em manifestação ao Science Media Centre. Bart De Strooper, do UK Dementia Research Institute, disse não haver “dados convincentes de transmissão via produtos sanguíneos” e considerou precipitadas as comparações com os príons. Richard Oakley, da Alzheimer’s Society, foi direto: não há evidência de que se possa “pegar” Alzheimer em procedimentos médicos — e as transfusões salvam milhões de vidas por ano.

O que os autores propõem é vigilância: acompanhar receptores de transfusões frequentes por longo prazo e desenvolver biomarcadores capazes de detectar precocemente as proteínas no sangue de doadores. Para quem doa ou recebe sangue — como nas campanhas permanentes do Hemonorte no RN —, nada muda: os procedimentos seguem considerados seguros e, muitas vezes, indispensáveis.

A prevenção com base sólida continua em outro terreno, já mapeado pela cobertura do Agora RN: dez minutos de exercício por dia evitariam 420 mil casos de demência no Brasil, e a relação entre remédios para dormir e Alzheimer segue sob estudo, sem veredito.