O candidato à Presidência Renan Santos (Missão) defendeu uma política de guerra contra as facções criminosas e afirmou que um eventual governo seu “vai matar bandido como se não houvesse amanhã”. A promessa foi feita em discurso em João Pessoa, com citação a PCC, Comando Vermelho e Nova Okaida.
O dado que o discurso não menciona é que a polícia brasileira já opera no maior patamar de letalidade da série histórica. O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, registrou 6.602 mortes decorrentes de intervenção policial em 2025 — alta de 5,4% sobre 2024, o que equivale a uma média de 18 pessoas mortas por dia. Na última década, entre 2016 e 2025, foram 60.558 mortes nessas circunstâncias.

O mesmo levantamento mostra quem morre: pessoas negras são vítimas 3,5 vezes mais do que brancas na letalidade policial. Os estados com as maiores taxas são Amapá, com 17,1 por 100 mil habitantes, Bahia, com 10,6, e Sergipe, com 8,4.
O Anuário registra, no mesmo período, um movimento em sentido contrário no indicador que mede a violência geral. A taxa de mortes violentas intencionais caiu para 19,1 por 100 mil habitantes, a menor desde 2012, e a meta nacional de redução de homicídios foi cumprida com dois anos de antecedência. Ou seja: os homicídios caíram enquanto a letalidade policial subiu — os dois movimentos não caminham juntos.
Renan Santos sustentou que o enfrentamento ao crime poderia criar coesão nacional e declarou que deseja ver a população comemorando operações policiais como celebra conquistas esportivas. A íntegra do discurso foi publicada por O Correio de Hoje na reportagem “Renan fala em ‘matar bandido como se não houvesse amanhã'”.
A comparação com El Salvador, recorrente no discurso de candidatos que defendem endurecimento, também tem números. O país centro-americano encerrou 2025 com taxa oficial de 1,19 homicídio por 100 mil habitantes, contra 106 por 100 mil em 2015. O próprio Fórum Brasileiro de Segurança Pública já publicou análise argumentando que a transposição do modelo não se sustenta, por diferenças de escala populacional, estrutura federativa e desenho institucional entre os dois países.
O debate sobre segurança tem dominado a campanha no Rio Grande do Norte, com propostas que vão da redução da maioridade penal à desmilitarização das corporações. Renan Santos, que não terá tempo no horário eleitoral gratuito porque o partido não atingiu a cláusula de desempenho, tem concentrado a campanha em atos de rua e redes sociais.