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Opinião

Crédito eleitoral atropela a prudência

Baixa liberação dos recursos deveria estimular uma revisão do programa, não o afrouxamento da análise dos financiamentos
Por O Correio de Hoje
11/08/2026 | 15:37

O Programa Move Motoristas dispõe de R$ 30 bilhões para financiar veículos novos, mas até agora desembolsou apenas R$ 2,2 bilhões, equivalentes a 7,3% do total, segundo o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Criada para ampliar as chances eleitorais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva entre motoristas e entregadores de aplicativo, parcela considerada mais próxima do bolsonarismo, a iniciativa esbarra justamente na situação financeira de quem pretende beneficiar.

Em vez de servir de alerta para uma revisão do estímulo indiscriminado ao consumo, a baixa concessão de crédito tem levado o governo a tentar acelerar sua liberação. O problema é que o brasileiro chega a esse momento pressionado por dívidas, juros muito altos e, em muitos casos, restrições de crédito que tornam ainda mais arriscado assumir novos compromissos.

residente Lula fala ao público diante de um painel azul com a inscrição “Move Brasil” em letras brancas
Presidente Lula durante o lançamento do programa de crédito Move Motoristas. Foto: Ricardo Stuckert/PR

Os números do Banco Central retratam esse quadro. Em maio, o endividamento das famílias estava em 49,8%, enquanto a inadimplência permanecia no recorde de 4,7%. Nem uma nova rodada do Desenrola foi suficiente para modificar essa realidade. O programa de renegociação de dívidas, inclusive, acaba de ser prorrogado até 31 de agosto, já dentro do período eleitoral.

Ainda assim, o governo insiste na lógica sintetizada por Dilma Rousseff na expressão “gasto é vida”. Pretende estimular o brasileiro a consumir mesmo quando faltam condições financeiras para isso. O Move Motoristas, portanto, figura entre as políticas que não deveriam ter sido lançadas diante dos próprios dados disponíveis, mas continua sendo impulsionado porque pode produzir o resultado que interessa politicamente à gestão petista, votos.

Como o programa termina em 15 de setembro, cresce a pressão sobre os bancos para liberar os recursos com maior velocidade. Nas instituições públicas, já houve mudança. Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil passaram a aceitar como comprovação formal de renda os demonstrativos de pagamento fornecidos pelas plataformas aos motoristas.

Os bancos apresentam a alteração como “aperfeiçoamento”. Na prática, porém, afrouxam a análise de crédito ao equiparar a renda formal a uma receita marcada por oscilação e inconstância.

Não existe garantia de que um motorista de aplicativo conservará, ao longo do financiamento, o mesmo nível de renda usado para conseguir o empréstimo de um carro novo na Caixa ou no Banco do Brasil. O empregado formal também pode perder o trabalho repentinamente, mas dispõe de verbas rescisórias e do FGTS, proteção que estabelece uma diferença objetiva entre as duas situações.

O rigor na avaliação de crédito também ajuda a impedir que os juros, já elevados no País, avancem ainda mais.

Ao governo, contudo, parece interessar sobretudo fazer chegar ao mercado os R$ 30 bilhões reservados ao Move Motoristas. Foi o que indicou o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante. “Estamos adotando melhorias que estão nos permitindo avançar no ritmo de aprovações”, afirmou.

Usar bancos públicos para direcionar crédito não é uma novidade brasileira. Retomar essa prática, apesar do recente e trágico legado deixado ao País por experiências dessa natureza, volta a colocar a política acima da prudência e representa um verdadeiro descalabro.