A inscrição de um álbum independente no Grammy Latino costuma marcar mais do que uma etapa na carreira de um artista, sinaliza também a tentativa de atravessar fronteiras. Foi esse movimento que a cantora Cami Santiz fez ao submeter “Salina”, lançado em 28 de maio, à principal premiação da música latina.
Para quem produz fora dos grandes centros da indústria musical, o gesto carrega um peso adicional. “É algo surreal. A gente sempre tem o Grammy Latino como algo super distante. E ainda mais a gente fazendo música no Nordeste, em Natal”, diz a artista. “Então quando a gente tem essa oportunidade, é uma maneira maravilhosa de outras pessoas de outros países conhecerem o meu trabalho.”

O álbum nasce de um processo que combina intimidade e insistência. Gravado de forma independente em um home studio instalado na casa do companheiro da cantora, que também assina a produção musical. “Salina” foi construído ao longo de noites, fins de semana e renúncias. “A gente doava todos os nossos finais de semana, dias da semana, madrugadas, para fazer esse álbum”, afirma. “Então deixei de sair, deixei de ver meus amigos, mas tudo pela arte.”
Antes disso, a música não parecia um caminho evidente. Cami tentou diferentes instrumentos, sem sucesso inicial, e chegou a abandonar a ideia. A virada aconteceu durante um período de quatro anos de viagens por 15 países. “Eu percebi que a música era algo que me conectava com os lugares e principalmente com as pessoas”, conta. Foi nesse contexto que aprendeu ukulele e começou a compor, incentivada pelo parceiro. “Ele me escutou cantando e falou: ‘poxa, sua voz é tão bonita. Essa voz tem que ir para o mundo’.”
A construção de “Salina” também reflete essa trajetória híbrida. Nascida em Manaus e vivendo há mais de uma década em Natal, a artista traduz essa mistura em som e narrativa. “Eu fiz isso um paralelo do que eu sou. De qualquer maneira eu estou aqui morando em Natal há mais de uma década, mas nasci em Manaus também. Então o meu sotaque é meio misturado”, afirma. As referências aparecem nas letras e na estética do álbum, que percorre paisagens e experiências do litoral potiguar.
A própria ideia do disco surgiu a partir de uma experiência em Mossoró, durante uma visita a salinas. “Eu fiquei pensando: Mossoró não tem mar. E aí o sal vem do rio Mossoró. Então eu fiz esse paralelo do que eu sou”, explica. A metáfora entre águas doces e salgadas se tornou um eixo conceitual do projeto.
A inscrição no Grammy Latino surge, nesse contexto, como uma extensão natural desse percurso. “Eu voltei para casa no carro chorando, sem acreditar”, diz. “Para mim, só de ter dado esse passo já é parte de um reconhecimento do que eu venho fazendo.”

Apesar do avanço, a artista aponta os limites estruturais de produzir música fora do eixo Rio-São Paulo. “Nós temos toda uma cadeia de produtores da cultura e a gente depende uns dos outros. Se um lado dessa cadeia não tem tanta força como deveria, isso também afeta a nós artistas locais”, afirma. Ainda assim, destaca a rede de colaboração e resistência na cena local. “São vários artistas daqui que se juntam com o meu trabalho, que acreditam no que eu faço.”
Sem investimento em impulsionamento pago, a trajetória digital também foi construída de forma orgânica. “Cada play é suado, cada foto, cada vídeo”, diz. Para ela, a internet segue como ferramenta central de expansão. “Eu sinto que a internet pode nos levar a lugares muito inimagináveis. Isso aconteceu comigo, então eu vou defender isso até o fim.”
Nos palcos, a evolução acompanha o amadurecimento do projeto. De apresentações marcadas pelo nervosismo em festivais como DoSol e Mada a uma relação mais segura com o público, Cami vê o palco como parte do processo formativo. “Eu entendi que o palco realmente é professor”, afirma. “Mesmo com medo, eu subo.”
Agora, com o álbum lançado e inscrito na premiação, o próximo movimento ainda aponta para expansão geográfica. “Eu ainda não toquei fora do Estado. Então eu ficaria super feliz de me apresentar em outro lugar com o ‘Salina’. Para mim, esse seria o próximo grande passo.”
A inscrição no Grammy Latino não implica, por si, projeção imediata, mas altera o patamar de inserção do projeto. Produzido em home studio, em Natal, o álbum “Salina” passa a integrar o circuito de avaliação de uma premiação internacional, ampliando seu alcance potencial e inserindo a obra em um novo ambiente de circulação.