O consumo frequente de alimentos ultraprocessados pelos pais pode influenciar o peso e as medidas corporais dos filhos ao nascer. Estudo realizado em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, identificou que uma maior ingestão desses produtos esteve associada a bebês mais pesados e com maior acúmulo de gordura nas coxas e na região lateral do abdômen.
Os resultados reforçam a importância da alimentação paterna no período anterior à concepção, tema ainda pouco explorado nas pesquisas sobre a saúde dos recém-nascidos. Segundo os pesquisadores, alterações no peso e na composição corporal ao nascer podem elevar o risco de desenvolvimento de doenças cardiometabólicas na vida adulta.

“A nutrição e a saúde materna antes, durante e depois do nascimento do bebê sempre receberam atenção, mas pouco se fala sobre o papel da dieta paterna. Nosso estudo mostra que ela também é muito importante para a saúde do bebê”, afirma Daniela Sartorelli, professora da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP).
A pesquisa acompanhou 43 famílias, formadas por pais, mães e recém-nascidos atendidos pelo sistema público de saúde de Ribeirão Preto. A análise mostrou que os ultraprocessados correspondiam a 30% de toda a energia consumida pelos homens, com destaque para carnes processadas, bebidas açucaradas e biscoitos. Os resultados foram publicados na revista científica Nutrition Research.
A hipótese dos cientistas é que o consumo desses produtos prejudique a formação dos espermatozoides, processo que ocorre antes da concepção. Um dos possíveis mecanismos envolve o gene IGF-II, relacionado ao crescimento fetal e herdado exclusivamente do pai.
Pesquisas anteriores indicam que os hábitos alimentares paternos podem provocar modificações bioquímicas nesse gene presente no esperma por meio da metilação. A alteração pode interferir no funcionamento dos genes transmitidos ao bebê e, consequentemente, no desenvolvimento do feto.
“Dietas ricas em alimentos ultraprocessados podem criar um ambiente pró-inflamatório no organismo, afetando a qualidade do esperma e alterando a expressão de genes que serão transmitidos ao bebê. Esse processo é conhecido como epigenética”, explica Mariana Rinaldi Carvalho, doutoranda da Fapesp e coautora do estudo.
“A atividade gênica pode ser ‘ativada’ ou ‘desativada’ dependendo dos hábitos alimentares do pai”, acrescenta a pesquisadora. Entre os produtos classificados como ultraprocessados estão salgadinhos embalados, biscoitos recheados, batatas fritas pré-prontas e refrigerantes, presentes na alimentação cotidiana de milhões de pessoas.