O Brasil tinha 1,7 milhão de pessoas vivendo com HIV no ano passado, dentro de um contingente mundial de 41 milhões, segundo balanço apresentado na Conferência Internacional da Aids, no Rio. Entre 2010 e 2024, enquanto as novas infecções recuaram 43% no planeta, avançaram 21,9% no país. O contraste expõe um retrocesso que exige resposta mais firme e contínua das autoridades brasileiras.
Nem mesmo o cenário global permite acomodação. O programa das Nações Unidas dedicado ao combate ao HIV, a Unaids, permanece distante da meta de reduzir em 90% os novos casos e as mortes até 2030. Os óbitos anuais caíram 57%, chegando a 570 mil, ainda 400 mil acima do objetivo estabelecido. O progresso existe, mas está longe de ser suficiente para vencer o vírus.

A ciência já dispõe dos principais instrumentos para controlar o HIV. Campanhas de orientação para o sexo seguro, coquetéis antirretrovirais que impedem a manifestação da aids e terapias profiláticas usadas antes e depois de uma possível exposição formam uma estratégia conhecida e eficaz. Nada disso, porém, funciona sem políticas públicas consistentes, permanentes e bem executadas. Quando a vigilância afrouxa ou a assistência falha, as infecções retomam força.
O recuo brasileiro é especialmente lamentável porque o país já foi referência internacional nessa área. Chegou a quebrar patentes para garantir a distribuição gratuita de medicamentos pelo SUS. Hoje, aparece entre as nações onde os casos crescem, ao lado de Afeganistão, Argélia, Bangladesh, Congo, Costa Rica, Egito, Iêmen, Madagascar, Níger, Paquistão, Paraguai, Peru, Filipinas, Quirguistão, Senegal, Sri Lanka, Sudão, Tunísia e Venezuela.
Não é o nível de desenvolvimento que determina o resultado. Benim, Essuatíni, Quênia, Lesoto, Nepal, Ruanda e Zimbábue reduziram as novas infecções em mais de 78%. A cobertura destinada a impedir a transmissão de mães para bebês alcançou 87% em 2025, diante de 24% quinze anos antes. No mesmo período, o acesso ao tratamento antirretroviral subiu de 24% para 78%. Na África Subsaariana, que concentra metade das infecções e 69% das contaminações pediátricas, o número de infectados caiu 59%.
Esses avanços confirmam que o HIV pode ser controlado. A meta 95-95-95 prevê diagnosticar ao menos 95% das pessoas com o vírus, tratar 95% delas e obter supressão viral em 95% dos pacientes tratados, condição necessária para impedir o contágio. O mundo está em 88-89-95. O Brasil, em 96-82-95. Os principais gargalos brasileiros estão na etapa inicial, no monitoramento e na continuidade do tratamento dos diagnosticados.
É indispensável assegurar o fornecimento contínuo dos medicamentos, acompanhar os pacientes e buscar ativamente quem interrompeu a medicação. A proteção da identidade torna esse trabalho mais delicado e trabalhoso do que em outras doenças, mas não o dispensa. Os centros de atendimento precisam incorporá-lo à rotina. Persistem falhas graves na estrutura pública de controle de uma doença altamente contagiosa, diante da qual não cabe descuido nem interrupção. O SUS tem capacidade para enfrentar qualquer moléstia infecciosa. Falta utilizá-la com competência.