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Informe do Correio

Fugir dos debates enfraquece a democracia

Ao tratarem o confronto público como decisão estratégica, principais candidatos retiram do eleitor uma oportunidade essencial de comparar propostas e avaliar argumentos
Por O Correio de Hoje
03/08/2026 | 17:31

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), os dois principais candidatos à Presidência, tratam a participação em debates como escolha pessoal, não como obrigação diante do eleitorado. Em entrevista ao podcast Inteligência Ltda., Lula afirmou: “Eu, como presidente da República, não vou para debate para ouvir bobagens. Não vou”. Flávio, por sua vez, condiciona sua presença à participação do presidente, conforme se ouve de sua assessoria. A recusa representa prejuízo evidente para a democracia. É nos debates que o cidadão pode conhecer melhor as ideias de cada candidatura, comparar propostas e reunir elementos para decidir o voto. Também é ali que os concorrentes são desafiados e precisam demonstrar se conseguem sustentar politicamente seus argumentos sob a pressão do enfrentamento público. Fora desse ambiente, discursos ensaiados e entrevistas controladas permitem respostas previsíveis.

Há motivos para criticar o formato desses encontros. Sobretudo no primeiro turno, muitos se converteram em espetáculos preparados por marqueteiros, mais interessados em produzir vídeos para as redes sociais do que em discutir projetos para o País. Candidatos sem relevância eleitoral entram como auxiliares dos concorrentes mais fortes ou usam o tempo para tumultuar e impedir qualquer discussão mais séria.

Lula e Flávio Bolsonaro participam de eventos de campanha eleitoral
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro durante eventos de campanha — Foto: Ricardo Stuckert e Vittor Sales

A cada eleição, emissoras e organizadores alteram as regras para reduzir essas distorções, até agora sem muito sucesso. Ainda assim, seria um erro concluir que a solução está em abandonar os debates. Mesmo imperfeitos, eles continuam entre as poucas ocasiões em que os principais candidatos se enfrentam ao vivo, sem controlar completamente o roteiro.

Nenhum outro instrumento eleitoral reúne exposição pública, contraditório e confronto direto. Entrevistas, sabatinas e programas de governo têm utilidade, mas não substituem o instante em que um candidato precisa responder à crítica do adversário, defender uma posição atacada e reagir a uma pergunta que não escolheu.

Flávio Bolsonaro deveria ter interesse especial nesse espaço. Como principal nome da oposição, cabe a ele convencer o eleitor de que teria condições de governar melhor que o atual presidente. Condicionar sua presença à de Lula pode parecer uma forma de pressioná-lo, mas também transmite a ideia de que sua disposição para o confronto depende do comportamento de quem pretende derrotar.

A fuga não começou nesta eleição. Desde a redemocratização, candidatos à frente das pesquisas passaram repetidamente a considerar os debates um risco a ser evitado, em vez de um dever democrático. Fernando Henrique Cardoso recusou-se a participar em 1998, quando caminhava para conquistar a reeleição no primeiro turno. Nenhum debate presidencial foi realizado na televisão naquele ano, também por causa das regras que exigiam a presença de todos os candidatos.

Em 2006, Lula deixou de comparecer a um debate presidencial e foi chamado de “fujão” por Geraldo Alckmin (PSB), hoje seu vice-presidente. Naquele momento, Alckmin era adversário de Lula na disputa pelo Palácio do Planalto e concorria pelo PSDB. Os nomes mudam, mas o cálculo permanece. Quem imagina ter mais a perder prefere administrar riscos e reduzir as situações em que pode ser surpreendido.

Sem o debate, a campanha se desenvolve quase sempre em ambientes organizados pelos próprios candidatos. Entrevistas são negociadas, formatos são escolhidos, estratégias são definidas e as falas se dirigem a plateias inclinadas a concordar. O candidato fala para os seus e evita zonas desconfortáveis.

No confronto ao vivo, porém, não é possível eliminar toda pergunta incômoda, selecionar sempre o interlocutor conveniente ou mudar de assunto sem custo diante do público. É justamente por isso que passou a ser visto como ameaça por quem lidera ou acredita estar em posição confortável.

Quando qualquer exposição fora de controle se torna risco intolerável, o marketing ocupa o lugar do compromisso com a discussão pública. A estratégia pode ser eficiente para vencer uma eleição, mas empobrece o processo eleitoral. O objetivo deixa de ser convencer por meio de argumentos e passa a ser preservar a posição alcançada, evitando erros, perguntas difíceis e contradições.

O maior prejudicado não é a emissora que organiza o encontro nem o adversário privado do confronto. É o eleitor. Sem debates, a campanha corre o risco de virar uma sequência de monólogos. Cada concorrente fala apenas para sua própria audiência, cercado de aliados e questionado, muitas vezes, por entrevistadores amistosos. Assim, o eleitor recebe mensagens isoladas, mas não vê as propostas colocadas frente a frente.

É legítimo buscar formatos menos rígidos e capazes de produzir discussões mais substantivas. Também é razoável rever critérios que permitem a participação de candidaturas sem expressão. O que não é aceitável é submeter a presença dos principais concorrentes ao humor das pesquisas, à conveniência do momento ou ao cálculo dos marqueteiros.

Quem solicita milhões de votos não pode escolher apenas os ambientes em que aceita ser questionado. Ao pedir a confiança do País, o candidato também assume o dever de se expor ao contraditório. Enquanto não existir mecanismo mais eficaz para assegurar esse confronto público, recusar debates continuará sendo uma maneira de enfraquecer a democracia.