O chamado “estirão de crescimento”, fase em que adolescentes podem crescer mais de sete centímetros por ano, costuma provocar mudanças importantes no desempenho esportivo. O aumento da altura pode favorecer modalidades como o basquete, melhorar impulsão, velocidade e força, mas especialistas afirmam que o processo varia de acordo com fatores hormonais e genéticos, além de exigir cuidados para reduzir o risco de lesões.
A mudança foi sentida na prática por Miguel do Nascimento, de 16 anos, atleta da equipe Sub-16 de basquete do Instituto para o Desenvolvimento do Esporte e da Cultura (Idec), no Rio de Janeiro. Desde junho de 2025, ele ganhou cerca de 10 centímetros de altura e passou a medir 1,79 metro, o que influenciou diretamente seu desempenho dentro de quadra.

“Senti muita diferença na corrida, no pulo, a altura me ajudou muito na marcação. Existe muita pressão em cima disso, muitas pessoas falavam para mim que jogador de basquete precisa ser alto, embora isso não seja uma regra”, conta.
A experiência também foi vivida por Arthur Araújo, de 16 anos, companheiro de equipe. Após uma fase de crescimento acelerado, ele chegou a 1,89 metro de altura, característica que passou a favorecer ainda mais as funções que desempenha em quadra. “Ajudou muito no meu estilo de jogo. Eu jogava de pivô e ala-pivô, que são posições que precisam de altura, e sempre sofria quando enfrentava alguém mais alto.”
Embora a altura seja um diferencial em algumas modalidades esportivas, os médicos ressaltam que o estirão ocorre em ritmos diferentes entre os adolescentes. Nos meninos, esse crescimento acelerado acontece praticamente em todos os casos. Já entre as meninas, cerca de 30% não passam por essa fase de forma tão evidente, sem que isso represente qualquer problema de saúde.
“100% dos meninos devem fazer essa velocidade de crescimento, mas cerca de 30% das meninas não o fazem. Não por haver algum problema de saúde, é fisiológico, é normal. O que acontece é que essas meninas crescem por mais tempo, o que compensa o fato de não fazerem o estirão, sem impactar negativamente na estatura final”, explica Luiz Claudio Castro, pediatra, endocrinologista e coordenador do Departamento de Endocrinologia Pediátrica da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).
Segundo os especialistas, o estirão está diretamente ligado ao início da puberdade e à ação dos hormônios responsáveis pelo crescimento. “O detalhe curioso é que, nos dois sexos, quem comanda o ‘estirão’ é o estrogênio. No menino, ele vem da conversão da testosterona em estradiol. O estradiol aumenta a produção de GH e IGF-1 e age direto na placa de crescimento. Em dose baixa estimula, em dose alta prolongada fecha. É o mesmo hormônio que abre e encerra o ‘estirão’”, afirma João Felipe Franca, médico e diretor da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte (SBMEE) do Rio de Janeiro.
Nas meninas, a puberdade costuma começar entre os 8 e os 12 anos, período em que ocorre grande parte do crescimento, geralmente antes da primeira menstruação. Nos meninos, esse processo costuma iniciar entre os 9 e os 14 anos, e o crescimento pode seguir até os 18 ou 19 anos, chegando, em alguns casos, aos 21 anos.
De acordo com a endocrinologista Maira Brandão, do Grupo Santa Joana, adolescentes que entram mais tarde na puberdade podem terminar essa fase com maior estatura. “Entrar na puberdade mais cedo pode levar a uma vantagem esportiva inicial pelo crescimento, mas essas crianças normalmente também tendem a crescer um pouco menos no final. Então às vezes o atleta que demora mais um pouco para entrar na puberdade pode acabar ficando mais alto.”
Apesar de fatores como obesidade infantil, desnutrição, doenças crônicas, transtornos alimentares e treinos muito intensos influenciarem o ritmo da puberdade, a genética é apontada como o principal fator para determinar a altura final. “Para um indivíduo saudável, a genética é responsável por cerca de 80% do padrão de crescimento de uma pessoa, assim como a estatura final”, explica Luiz Claudio Castro.
Os especialistas afirmam que é possível estimar a altura que o adolescente poderá atingir por meio do acompanhamento pediátrico, da altura dos pais, do histórico familiar e de exames como a radiografia da mão e do punho, utilizada para avaliar a idade óssea. Ainda assim, há grande diferença no ritmo de desenvolvimento entre jovens da mesma idade.
“Aos 13, 14 anos, a diferença de idade biológica entre dois meninos pode chegar a 5 anos. Um já é praticamente um adulto, o outro ainda é uma criança. As diferenças de força, potência e velocidade chegam a 30 a 50%. Então pode haver uma vantagem no esporte em alguns momentos dentro da mesma categoria, mas que não é justa ou sobre talento. E aí vem a virada da história: os que maturaram tarde têm chance desproporcionalmente maior de chegar ao profissional. É o chamado ‘efeito underdog’. A explicação mais aceita é que, não podendo resolver no físico, esses meninos foram obrigados a desenvolver técnica, leitura de jogo e resiliência, habilidades que valem mais no adulto, quando o físico se equaliza”, afirma João Felipe Franca.
Além das mudanças físicas, o período do estirão também aumenta a vulnerabilidade a lesões, já que os ossos costumam crescer mais rapidamente do que músculos, cartilagens e ligamentos. “Pode haver lesões musculares porque o corpo pode crescer tão rápido que a quantidade de músculos para sustentá-lo ainda não está preparada. O osso cresce, mas as cartilagens, os músculos e os ligamentos não acompanham. E às vezes a mecânica do movimento pode ficar prejudicada, porque as pernas podem crescer mais rápido do que o tronco, por exemplo, o que causa essa percepção de que o adolescente fica desengonçado”, explica Maira Brandão.
Para reduzir o risco de lesões durante essa fase, os especialistas recomendam manter exercícios de fortalecimento muscular, respeitar dores persistentes, ajustar o volume e a intensidade dos treinos, investir em alongamento e mobilidade, garantir períodos adequados de descanso e manter alimentação equilibrada e sono de qualidade. Esses cuidados ajudam o organismo a acompanhar as mudanças provocadas pelo crescimento acelerado.