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Cultura

Exposição “Fios de Memória” transforma crochê em memória e expressão feminina

Mostra na Pinacoteca apresenta peças produzidas ao longo de cinco décadas e propõe um olhar sobre o papel de pessoas comuns na construção da história não oficial a partir da trajetória de Almira Costa de Oliveira
Redação
29/07/2026 | 05:58

Muito além de uma técnica artesanal, o crochê pode ser um arquivo de memórias, afetos e identidades. É dessa perspectiva que nasce Fios de Memória, exposição que ocupa a Pinacoteca, em Natal, no período de 1º e 30 de agosto, propondo ao público uma reflexão sobre o trabalho manual como patrimônio cultural e expressão da história de pessoas comuns que ajudaram a construir o país longe dos registros oficiais. A abertura acontece no dia 1º de agosto, às 10h, com entrada gratuita.

Concebida para marcar o centenário de nascimento de Almira Costa de Oliveira (1926-2022), a exposição reúne peças de crochê produzidas ao longo de décadas, fotografias, documentos e objetos pessoais que revelam uma trajetória marcada pela migração, pelo trabalho, pela criatividade e pelos vínculos familiares. Mais do que contar uma história individual, a mostra transforma uma memória familiar em uma experiência coletiva, capaz de dialogar com diferentes gerações.

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Exposição gratuita ocupa a Pinacoteca da capital entre 1º e 30 de agosto; Peças, fotografias e objetos contam a trajetória de Almira Costa de Oliveira - Foto: Elisa Elsie

Nascida no sertão paraibano, Almira enfrentou as dificuldades impostas pela seca, construiu uma família ao lado de Sebastião Manoel de Oliveira e, em 1959, encontrou em Natal o lugar onde consolidaria sua história de vida.

Na capital potiguar, Almira trabalhou, empreendeu e desenvolveu uma produção artesanal que atravessou décadas, transformando o crochê em expressão de cuidado, beleza e permanência. Além de dona de casa, ela e o marido viveram como grande parte da população brasileira: fizeram trabalhos informais, venderam produtos em feiras, mantiveram uma pequena mercearia na frente de casa e encontraram diferentes formas de garantir o sustento da família, até que os filhos alcançassem melhores condições de vida e pudessem ampará-los na velhice.

Após a aposentadoria, ela passou a dedicar ainda mais tempo ao artesanato. Produziu colchas, enxovais e inúmeras peças que hoje carregam não apenas valor estético, mas também afetivo e histórico. Costumava dizer que jamais venderia seu trabalho porque “não tinha dinheiro que pagasse” o significado de cada peça.

Com curadoria da arquiteta Luanda Oliveira e da jornalista Mônica Costa, neta e filha da homenageada, respectivamente, a exposição propõe um olhar contemporâneo sobre o fazer artesanal, retirando-o do espaço doméstico para inseri-lo no campo da memória, da cultura e da preservação patrimonial.

A coordenação geral dos trabalhos é de Margarida Oliveira, também filha de Almira, responsável por articular o trabalho de pesquisa, organização do acervo e produção da mostra, reunindo a família em torno da preservação e compartilhamento desse legado.

“Entrar em Fios de Memória é aceitar um convite para desacelerar o tempo e aprender a pensar com as mãos. Esta exposição, gestada com afeto para celebrar o centenário de Almira Costa de Oliveira, propõe um deslocamento sensível: retirar o crochê do silêncio do ambiente doméstico para revelar sua força como linguagem de resistência, identidade e partilha. Almira representa a história preciosa de tantos sujeitos comuns — pessoas das classes populares que, longe dos registros oficiais, escrevem a história de nosso país com as pontas dos dedos”, afirmam as curadoras.

A arquiteta Diana Delgado é responsável pela Pesquisa e Desenvolvimento da Exposição e é co-autora, juntamente com Luanda Oliveira, pela expografia.

A mostra apresenta peças confeccionadas por Almira ao longo de aproximadamente 50 anos. A obra mais antiga em exibição é uma colcha de cama produzida em 1969, criada como presente de casamento para uma sobrinha e preservada pela família até hoje. O percurso expositivo também estabelece um diálogo entre gerações ao incluir trabalhos contemporâneos produzidos por Maria das Graças, filha de Almira, que herdou da mãe o talento para o artesanato e mantém viva essa tradição familiar.

Passado e presente

A exposição narra fatos marcantes da vida de Almira e de sua família. O visitante vai perceber como os fios do crochê também entrelaçam temas como migração, maternidade, trabalho, empreendedorismo feminino e transmissão de saberes entre gerações.

Mais do que preservar lembranças, Fios de Memória reafirma o valor das histórias anônimas que compõem a identidade cultural brasileira. Em um tempo marcado pela velocidade e pelo consumo, a exposição convida o público a desacelerar e reconhecer que cada ponto, cada fotografia e cada objeto guardam experiências que merecem ser compartilhadas. Realizada no ano em que Almira completaria 100 anos, a mostra celebra um legado que ultrapassa os limites da família e passa a integrar a memória coletiva da cidade.

Quem foi Almira

Nascida em 1º de julho de 1926, no sertão da Paraíba, Almira Costa de Oliveira construiu uma trajetória marcada pela resiliência, pelo trabalho e pelo afeto. Em 1959, mudou-se com a família para Natal, onde fixou residência no bairro das Quintas e viveu pelo restante da vida. Teve seis filhos — dois homens e quatro mulheres —, 15 netos e 15 bisnetos. Outros descendentes nasceram após sua partida, ampliando um legado familiar que continua a crescer. Muito religiosa, encontrava na fé uma fonte permanente de esperança.

Depois de enfrentar as dificuldades da seca, da migração e da luta cotidiana pelo sustento da família, tornou-se uma pessoa profundamente grata pela vida que construiu. Era conhecida pelo otimismo contagiante, pela disposição para o trabalho, pela generosidade e pela capacidade de enxergar motivos para celebrar mesmo diante das adversidades.

Seu talento para o crochê, aprendido ainda na adolescência e aperfeiçoado ao longo de décadas, tornou-se uma das expressões mais marcantes de sua criatividade e permanece vivo nas peças que hoje integram a exposição Fios de Memória.

Casada durante 75 anos com Sebastião Manoel de Oliveira, os dois permaneceram juntos até a morte dele, em agosto de 2021. Almira faleceu apenas 149 dias depois, encerrando uma trajetória marcada por uma longa vida compartilhada.

Serviço

Exposição: Fios de Memória
Período: 1º a 30 de agosto
Abertura: 1º de agosto, às 10h
Local: Pinacoteca – Natal
Entrada: Gratuita