O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, ampliou sua influência sobre a Venezuela após a captura de Nicolás Maduro por forças americanas, tornando-se o principal articulador da política de Washington para o país. Segundo reportagem baseada em entrevistas com autoridades e pessoas ligadas aos governos americano e venezuelano, Rubio passou a exercer influência direta sobre decisões econômicas, políticas e administrativas do governo interino liderado por Delcy Rodríguez, em um arranjo considerado sem precedentes desde a ocupação do Iraque pelos Estados Unidos em 2003.
De acordo com a reportagem de O Globo, Rubio mantém contato frequente com Delcy Rodríguez, que assumiu interinamente a liderança da Venezuela com respaldo dos Estados Unidos após a prisão de Maduro. A relação inclui conversas regulares por aplicativos de mensagens, mas vai além da diplomacia tradicional. O secretário participa de decisões relacionadas à administração do país, incluindo nomeações de integrantes do governo, condução da política energética, aplicação de sanções e definição das condições para utilização das receitas provenientes das exportações de petróleo.

O controle das receitas petrolíferas é apontado como um dos principais instrumentos de influência de Washington. Segundo a publicação, os recursos obtidos com a maior parte das exportações venezuelanas passam pelo Tesouro dos Estados Unidos antes de serem transferidos ao governo de Caracas. O mecanismo permite que o governo americano estabeleça critérios sobre a destinação desses recursos e condicione sua liberação ao cumprimento de exigências definidas por Rubio e sua equipe.
Além da administração das receitas, Rubio supervisiona a política de sanções econômicas aplicada à Venezuela. A equipe do Departamento de Estado elabora as licenças que autorizam empresas estrangeiras a operar no país, participa da abertura do setor petrolífero ao investimento internacional e prioriza a entrada de companhias americanas. Segundo a reportagem, o secretário também influenciou decisões envolvendo projetos anteriormente conduzidos por empresas ligadas à Rússia e orientou o governo venezuelano a evitar acordos com adversários estratégicos dos Estados Unidos.
A cooperação entre Washington e Caracas também se estendeu à área de segurança. O texto relata que o governo interino colaborou com autoridades americanas na extradição de investigados pelos Estados Unidos, entre eles o empresário Alex Saab, aliado de Maduro, além de compartilhar informações de inteligência utilizadas em operações contra integrantes da organização criminosa Tren de Aragua. A reportagem afirma ainda que essa cooperação resultou na primeira ação militar conjunta entre os dois países em décadas.
Nos últimos meses, a atuação americana ganhou novo peso após dois terremotos atingirem a Venezuela. Os Estados Unidos enviaram militares, ajuda financeira e equipes de resgate, ao mesmo tempo em que reforçaram o apoio ao governo interino. Segundo a reportagem, Rubio passou a estruturar a política americana em três etapas: recuperação econômica, estabilização institucional e posterior transição democrática. A cronologia, porém, permanece indefinida, especialmente em relação à realização de eleições livres.
O modelo adotado por Washington tem provocado críticas dentro e fora dos Estados Unidos. Parlamentares democratas questionam a base jurídica para o controle de ativos e receitas venezuelanas, enquanto analistas apontam que a manutenção de integrantes do antigo regime no poder pode comprometer a legitimidade do processo de transição. Também há receio de que o elevado grau de influência americana sobre a administração venezuelana represente uma intervenção incompatível com princípios de soberania nacional e direito internacional.
A reportagem afirma que Rubio defende a manutenção do atual modelo como forma de reconstruir a economia venezuelana e criar condições para uma futura democratização. Entretanto, investidores permanecem cautelosos diante das incertezas políticas, da fragilidade institucional e do estado de deterioração da indústria petrolífera. Sem definição sobre quando ocorrerão novas eleições, o futuro político da Venezuela continua condicionado às decisões tomadas em Washington, consolidando Marco Rubio como a principal autoridade na condução da política americana para o país.