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Solidão

Solidão na terceira idade pode aumentar risco de doenças; especialista alerta para sinais

Isolamento social compromete saúde física e cognitiva de idosos, diz especialista
Por O Correio de Hoje
08/07/2026 | 16:29

A solidão na terceira idade pode comprometer a saúde física, mental e cognitiva e está associada ao aumento do risco de depressão, demência, hipertensão, infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e piora de doenças crônicas, como diabetes. O alerta foi feito pelo médico geriatra Jair Segundo. Segundo o especialista, a solidão é um problema frequente no envelhecimento e muitas vezes não aparece em exames, sendo identificada principalmente durante a avaliação clínica.

De acordo com o geriatra, a solidão é uma das condições mais comuns observadas na prática da geriatria e está relacionada às mudanças naturais do envelhecimento. Ele explica que essa fase da vida reúne ganhos, como experiência e amadurecimento, mas também perdas importantes, incluindo aposentadoria, morte de amigos, mudanças familiares e redução da convivência social. “A solidão é uma das doenças que não aparecem nos exames. A gente diagnostica na conversa clínica, na investigação, junto com o paciente idoso”, afirmou.

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Para o geriatra Jair Segundo, pequenas demonstrações de presença fazem a diferença - Foto: Reprodução

Segundo Jair Segundo, a aposentadoria é um dos momentos que mais exigem planejamento. Quando ocorre sem preparação, pode provocar uma ruptura brusca na rotina, considerada fundamental para o envelhecimento saudável. “O indivíduo que por anos a fio sempre trabalhou de segunda a sábado, sempre teve seu período de ocupação bem estabelecido, além do tempo com a família, acaba perdendo esse marcador da vida, que seria a sua atividade, seu trabalho. Quando não bem planejado, ele fica muito tempo ocioso, tendo impacto direto na cognição”, explicou.

O médico também destacou que o isolamento social costuma ser agravado pela perda de familiares e amigos, pela mudança dos filhos para outras cidades e pela diminuição da rede de convivência. Jair Segundo fez uma distinção entre morar sozinho e sentir-se sozinho. Segundo ele, viver sozinho pode ser uma escolha do idoso, enquanto o sentimento de solidão depende da qualidade das relações sociais e até mesmo da presença de doenças.

“Estar sozinho, ou morar sozinho, é uma coisa. Agora, sentir-se sozinho vai tanto da rotina que aquele idoso leva e da presença dos amigos e familiares nessa vida desse idoso quanto, até mesmo, do quadro patológico”, afirmou.

Ele observou que um idoso pode ter apoio da família e, ainda assim, sentir-se sozinho. Nesses casos, segundo o geriatra, a situação pode indicar algum problema de saúde que necessita de investigação. “Quando acontece isso, normalmente é um quadro patológico. Já é um sinal de alerta que puxa para a necessidade de uma investigação geriátrica, uma investigação da saúde daquele indivíduo”, disse.

Entre os principais sinais que merecem atenção estão perda do interesse por atividades antes prazerosas, alterações de humor, mudanças no sono, redução do apetite, esquecimento, recusa em tomar medicamentos e isolamento. “O idoso que fazia determinadas atividades e passou a não fazer. É o idoso que fica dentro da rede, não quer mais sair para conhecer outras pessoas, para ter um aumento de socialização. Tudo isso são sinais de alerta”, afirmou.

O médico ressaltou que a depressão em idosos pode apresentar sintomas diferentes daqueles observados em adultos mais jovens. “A depressão no idoso, apesar de comum, tem sinais que, como tudo na geriatria, são mais sutis. Não é às vezes aquele entristecimento franco. Pode acontecer apenas com mudanças de sono, mudanças de cognição, mudanças de humor repentina”, explicou.

Segundo Jair Segundo, a solidão também favorece comportamentos que prejudicam diretamente a saúde. Entre eles estão o abandono do tratamento medicamentoso, a alimentação inadequada, a diminuição da ingestão de água e a perda da rotina. “Só a solidão como condição, por si só, aumenta a carga pró-inflamatória e também tem efeito em maior quantidade de doenças cardiovasculares. Maior infarto, maior AVC, maior pressão alta, piora diabetes”, afirmou.

Ele acrescentou que o isolamento pode contribuir para o surgimento ou agravamento de problemas cognitivos. “Quando a gente fala de adoecimento mental, a gente passa pelo desenvolvimento de problemas cognitivos, como demência, ou piora quando já se tem uma demência pré-existente”, disse.

Segundo o especialista, o idoso isolado também perde referências importantes do dia a dia. “Ele perde esse ponto de rotina, perde o parâmetro para identificar que é a hora da comida, que é a hora de beber água, que é a hora do medicamento. Acaba desenvolvendo desorientação e delírio, que podem ser prejudiciais.”

Jair Segundo afirmou que pessoas que vivenciaram grandes vínculos familiares ou, ao contrário, passaram boa parte da vida afastadas da convivência familiar por causa do trabalho podem apresentar maior vulnerabilidade ao sentimento de solidão durante o envelhecimento.

Questionado sobre a relação entre isolamento social e doenças como depressão, ansiedade e demência, o médico respondeu que a associação é direta. “Esse prejuízo cognitivo pode desenvolver diretamente um prejuízo cognitivo, desenvolver demência. Então a solidão pode ser uma ponta do iceberg para o desenvolvimento de várias doenças, dentre elas tanto físicas quanto cognitivas, quanto demência, depressão e várias outras.”

Para identificar o problema, o geriatra orienta que familiares observem mudanças de comportamento, esquecimentos frequentes, alterações no sono, perda do interesse por atividades habituais e dificuldades para manter a rotina.

“São sinais de alerta que precisam ser diferenciados. Transtornos de humor de forma geral e problemas no sono. Então o idoso que está dormindo demais ou dormindo de menos também merece uma avaliação.”

Mesmo quando a rotina impede visitas frequentes, pequenas demonstrações de presença fazem diferença, segundo o especialista. “Fazer uma ligação, uma chamada de vídeo, tomar café com minha mãe, com minha avó, fazer aquele almoço de domingo em família. Tudo isso é algo que com certeza faz diferença e muito na vida do idoso”, afirmou.

Como parte do tratamento, Jair Segundo recomenda a participação em atividades coletivas, especialmente quando a solidão já foi identificada. “Um dos pontos da prescrição médica é a atividade coletiva. Participar de grupos de idosos, atividades de dança, pilates, academia, atividades manuais como crochê e pintura. O idoso precisa estar inserido em atividades coletivas.”

Segundo ele, essas atividades podem reunir pessoas da mesma faixa etária ou até de gerações diferentes, desde que favoreçam a convivência e a interação social. Por fim, o geriatra reforçou que mudanças na rotina, no comportamento, no sono e na memória devem motivar uma avaliação médica. “Para a solidão, o remédio é fácil: é presença.”